Antologia poética de Paulo Dagomé - Parte 2 de 7  

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o coice da serpente a princípio amolou meus lábios e
ignorando o cenário onde ela se punha senhora e de muxoxo
aproximei-me viscoso e consciente
da inferioridade dos meus dotes naturais ante aquele
desperdício de beleza
desprovida dos palcos e das luzes merecidas
e calado
ante tanta formosura
(o arco das suas sobrancelhas duas mulheres gozando)
falei tanto
que meu mestre gregório desistiu do seu ofício num momento
e até cri
e tive muita fé em deus
e nos cantos entoados nos terreiros da minha terra
quando a vi nua nuinha
à luz dos candelabros prateados
invoquei mãe menininha
valei-me
que os bicos dos seus peitos suscitam nos meus ouvidos
o zunido de mil buzinas de guerra
no alto da laje fria
que calor e que tormento
a curva do seu lamento
ao receber-me em seu dentro
voluptuosa vênus agridoce
no meu palato aterrorizado
que boceta meu deus que descalabro
que descuidadas todas as outras mulheres
quando embaracei-me ali
no torvelinho do seu baixo-ventre
e quis que jamais deles me livrasse
refém dos seus braços poderosos
do seu trono
do seu viço
dos seus truques baronesa dos infernos
suplico teus favores
me deixa beijar tua bunda durante trinta mil eras
oh ogiva nuclear
no centro dos meus sentidos
clareza do amanhecer no taquaral onde os faunos
escondem-se todo dia
só para vê-la banhar-se
fada sem ser boazinha
linda sem ser serviçal
exu egum jaguatirica égua
que os deuses me orientem
com bússolas estelares
no vão entre as tuas pernas
pra que eu não saia demente
pra que eu não saia doente
das faculdades mentais
quando sugar tua seiva
e o mel nos cantos da boca
queixo orelhas nariz
me fizer teu serviçais

e eu querer mais
querer mais

do teu crack divinal

***

é a ti que eu quero dar os dízimos
é a ti que quero dar nobreza
e se enxugo as tuas lágrimas com os meus cabelos
eu calo a tua fome com a minha inanição

juro que devolvo estes trinta dinheiros
antes que a corda passe pelos galhos da figueira
e se calo a tua fala com meus maus poemas
eu dissipo tua loucura com o meu desequilíbrio

juro que te canonizo ou te endeuso
e por ti sou cantor sou poeta e jardineiro
e se queimo tuas pálpebras com meus beijos de luar
vai calar tua tristeza minha vontade de matar-me

e é a ti que consagro este bezerro de ouro
e as imagens que forjei na bigorna do demônio
e se abafo teu bairrismo com minha postura estrangeira
vou enterrar os teus mortos com toda a terra de marte

***

capital de giro

quando eu soprei a morte nas narinas do senhor
conheci mais sobre a vida em sua forma menos tola

ó minha lady galáctica
ó minha mística ogiva

quando eu subi na torre para afrontar ao senhor
deus burguês ó burguesia por que tanto se assanhou

minha fome macdonald
minha sede coca-cola

minha culpa mea culpa
por não ter feito afinal
o que podia de mal

ó minha gótica amante
ó minha lua minguante

quem me dera alguns pecados de que me arrepender

***

aberto como cratera meu coração foi ferido
pelos três punhais de ouro do teu arsenal secreto
o primeiro me feriu quando teus olhos me olharam
na vez primeira e eu fiquei paralisado de afeto

o segundo me feriu na noite em que teus dois peitos
saltaram como gazelas e eu pude vê-los de perto
como afresco italiano no auge da renascença
e a esfuziante alegria de escravo recém liberto

já o terceiro punhal me feriu ontem de noite
quando eu falava de um pássaro e seu destino arredio
e a ferida foi tão funda e eu senti tanto frio

ao sair na madrugada como um cachorro danado
que acho que nunca mais a saúde recupero
pois quanto mais me afasto tanto mais me desespero

***

Afro-dite

?que é isso que assemelha-se à dança
e não se cansa
e não se farta
dessa música

e além da fala exala ímpetos de mímica
e me devora
e me aniquila
e me consome

?que é isto que estes dentes bailam loucos
ao ritmo africano que inebria
e descontrola os nervos
e contagia a carne
!marijuana em forma de mulher de outras galáxias

?que é isto que esta língua se projeta
e canta enquanto explora o céu da boca
e voa enquanto encanta e prende e assusta

? onde aprendeste o canto das sereias

? como roubaste as setas de cupido

? quem foi teu mestre nas artes do encanto

? foi merlin
? nostradamus

? conselhos de afrodite

? ou banhas-te com o mesmo alabastro que batsebah

vênus na noite africana

cleópatra brasileira

***

carrego comigo junto
todos os seus bísqüis
seu lábio torto comigo
e a vontade de ser feliz
carrego os porta-retratos
e alguns pensamentos vis
os copinhos de cachaça
e o sexo com quatro bis
a negra de porcelana
sobre um tapete de giz
crânio na mão como quem
casou-se com quem não quis
a felicidade passa
e eu escapo por um triz
o povo me vê na rua
e creia num tem quem diz
que o santo ali é bem pouco
sob o manto de verniz
e pra limpar a sujeira
que torce qualquer nariz
mais de vinte caminhões
e um batalhão de garis
não limpam a minha alma
de todo o mal que eu te fiz

o amor devia vir
em formato de refis

***

quanto mais cronos se move
na direção do não nada
mais minha vida emperrada
estreita desdireção
obstruda sencera
cisterna funda feita fossa
pra receber carnegão
do cu de mil bestas mortas
e da boca de mil dragões
o vômito fogo-sangüíneo
estou desinteiro
estou cíndico
estou um cornoviado
estou nerocalígula
estou uma tribo falida
estou uma tribo vendida
estou um cu
estou sem voz
estou sem ti
estou sempre mal contudo
desconstruído
desconteúdo
teuteúdomanteúdo
testículo que o teu muque espremeu

sem ti estou
prometeu

***

estou chorando por você
na mais vagabunda das tardes deste mundo
e desinvento os personagens que criei no afã
de libertar o meu espírito da única vida de que dispunha
e que me era possível viver

desorganizo o pessoal mental que sustento sem sossego

estou chorando por você
na mais vagabunda das desorientações de que fui vítima
e não tendo encontrado alívio no poema
concluo que ou me lanço de vez nas chamas da hipocrisia
ou me afogo entre os seios da desgraça
no epicentro da miséria

***

quero dança e poesia
quero chopp e futebol
quero a sua companhia
mas como você não vinha
e era preto o baby-doll

daquela menina preta
e esperei tanto você
e ela tanto insinuou-se
que era como se não fosse
um delito cometer

e eu tinha ido pro baile
não dançara com ninguém
meia noite você nada
meia vida meia estrada
e ela me chamou de bem

tantas horas tantos anos
sem dança sem futebol
você não vinha não vinha
fiquei olhando mainha
guardando roupas ao sol

e a moça do baby-doll preto
na minha cola afinal
tantos anos tantas horas
esperei por ti senhora
páscoa são joão carnaval

e as horas passando rentes
moça preta insinuante
e os anos nas minhas rugas
(pra aparecer verruga
aponte estrela distante

depois aponte sua pele)
e poesia e chopp
você não vinha não vinha
para a minha companhia
e o tempo no seu galope

e os humanos desumanos
descendentes do caçote
passando por minha vida
incréus torpes suicidas
e uns poucos de médio porte

que eu fui com a menina preta
ou era preto o baby-doll
quero sua companhia
mas como você não vinha
eu fui jogar futebol

nos vãos da menina preta

***

mas estão todas aqui
maculando o meu silêncio
com seus hífens e acentos
insinuando-se a mim

querem pular dentro/fora
desejam efervescer
querem polêmica e teste
querem pôr-se à toda prova

desejam publicidade
ou mesmo que eu embebede
do álcool que me são as próprias
querem que eu desça ao hades

estão em mim como poros
estão em mim como músculos
me dominam como hormônios
minha alma seu espólio

estão em mim como um filho
as palavras e episódios

This entry was posted on sexta-feira, 30 de maio de 2008 at 11:32 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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