O ônibus não está muito cheio. O 180.1, número do ônibus que tomo por pelo menos doze anos ininterruptos estranhamente não está cheio. Aproveito para dormir. Gosto. Encurta viagem longa. Uma mulher com jeito de doida senta na minha frente com uma bolsa enorme. Seu batom gasto e vermelho do final dos anos setenta trazia nostalgia. Minha mãe usava um assim ainda em meados dos anos oitenta, quando a ditadura acabava de acabar e as mulheres usavam cabelos como da Sula Miranda.
Imediatamente ao meu lado, um rapaz disperso ouvia disperso seu MP3. Logo a frente um jovem senhor com ar arrogante olha circunspecto imaginando a que horas terá que levantar as mãos e entregar seu rolex. No mesmo lugar só que na outra fileira encontra-se o vendedor de castanhas.
Não havia reparado no vendedor de castanhas, com seu pacote enorme de castanhas, já que era um vendedor de castanhas seria bastante razoável que o pacote fosse de castanhas. Não faço nenhuma observação inteligente ao seu respeito a não ser a genial conclusão de que gosto de castanhas.
Mais a frente, mais pessoas cuidam de suas vidas, inclusive eu que durmo despreocupado com uma apostila na mão. Finjo ser um cidadão que quitou todas suas dívidas com a sociedade.
Como um prenúncio de mal presságio ouço um terrível estrondo que ecoa pelo 180.1 Acordo. Olho ao redor e já imagino o pior: ônibus quebrado.
Ao invés disso encontro um pacote de castanhas jogado no chão pela freada brusca do motorista e o vendedor de castanhas com as mãos na cabeça, aflito sem saber o que fazer, o motorista sem saber o que fazer.
A única pessoa que parecia saber o que fazer era a mulher do batom dos anos setenta que pedia a todos ali de perto que ajudassem o desditado vendedor de castanhas. Nessa hora choro. Recolhidamente choro por não saber o que fazer e por ver a angústia do vendedor que provavelmente havia gasto boa parte do que ganhara a semana toda debaixo do sol quente de Br... Choro e tento voltar a dormir e sonho com a prisão.
Chego à rodoviária e a mulher do batom dos anos setenta me solicita que lhe instrua sobre locais de compra de passagens. Respondo que não é ali, mas na rodoferroviária. Ela pergunta se eu tenho certeza. Eu digo que não. Ela me pede que eu a leve no ponto do ônibus que vai a rodoferroviária. Eu digo que a levo e pego sua bolsa. Ela me diz que Deus vai me abençoar, eu digo tomara, preciso. E ela com seu cabelo e batom antigos se afasta com sua enorme bolsa.
Sinto-me feliz. Nem parece que matei doze pessoas e penso que talvez ainda tenha perdão para meus pecados. Jamais vi novamente o vendedor de castanhas. Espero que esteja bem!

S. Madrigal é um mother focker

"Radical News", abril de 2008, p. 3.

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1 comentários

Acho que posso descrever o Vendedor de Castanhas como o primo do meu tio triste, aquele que entoava com voz a alarido a trágica carreira que a vida lhe propusera; as suas muitas lutas advinham da sua própria estrutura genealógica, o seu pai tão pouco pode se furtar aos mesmos descaprichos, e a vida de igual conluio, determinou que não haveriam dias em que seus olhos pudessem descansar diante da progressão que as cadeias elitistas apregoam, na tentativa de legitimar a busca voraz atormentadora em busca da ascensão social. O vendedor de Castanha, é o eu que busco superar, é aquele que não se entrega diante de todas as procelas que o tentam manietar; seu encorajamento rumo à libertação não se detém, não a que a sua origem justifique a sua falta de ostentação, mas tudo parece contrário ao seu desejo de ascender-se, e contunto, o vendedor de castanhas só quer alcançar, mais um degrau em sua tragetória despercebida, uma castanha a mais...

14 de julho de 2008 às 18:26

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