Os chamados Radicais Livres Sociedade Anônima, maior e mais importante grupo de resistência cultural de todos os tempos passados, presentes e futuros de São Sebastião, em sua costumeira reunião de avaliação do Sarauradical (eles são hiper-radicais neste aspecto organizacional), ainda ontem na casa de cultura Allan Viggiano, seu atual reduto, foram surpreendidos pelo pedido de afastamento voluntário do nosso companheiro de tantas horas, Máximo Mansur, maior representante local da nossa velha e boa MPB. Considerado por todos como trinta por cento do Sarauradical, pela sua atuação como superintendente-em-chefe do GT* de Sonorização. Em virtude dos últimos acontecimentos inenarráveis do último sarau (veja quadro) era esperado uma verdadeira lavação de roupa suja na já propalada e habitual reunião de avaliação, porém o pedido de renúncia do nosso herói deixou a todos estarrecidos, uma vez que o grupo sempre agiu como uma grande família: Briga, briga, mas perdoa. Isso sem falar no fato de que todos falam mal uns dos outros pelas costas, tendo sido deliberado em reunião e inscrito na Ata 536.214 de abril de 2004, que a metragem adequada para se começar a falar mal de um companheiro era de trinta metros e não menos, mesmo assim, ai daquele não pertencente ao grupo que ousasse falar mal de um dos membros. Foi nesta mesma reunião que surgiu um dos principais lemas do grupo: QUIN CONUSCO NOM AIUNTAH ESPALDA que, traduzido do latim arcaico bizantino quer dizer: Quem conosco não ajunta, espada! (Uma paráfrase sem-vergonha de uma fala de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas e daí? A gente não liga mesmo...) Mas voltando ao assunto, senhores, do que é que eu falava mesmo? AH! Sim, da renúncia do Máximo. Então, gente, o Eduardo quase chora de emoção. O Isaac ria entre-dentes. Vinicius Borba sentiu-se subitamente com complexo de culpa pois havia “tirado” o Máximo “de tempo” durante o sarau. O mais surpreendente, porém, foi a atitude do Gil William que, maquiavélico, viu ali a sua grande chance de ascender no grupo, uma vez que o mesmo já vinha revelando à boca pequena a sua vontade de sugar todos os conhecimentos sonoríficos(?) do Mansur e sugerir eleições diretas para os GT’s já em 2010, achando ele que o poder delegado aos antigos medalhões dos Radicais Livres configurava uma verdadeira oligarquia cultural e que esses mesmos medalhões, entre eles Paulinho Dagomé - considerado ‘A Enciclopédia’ - Julio César, Claudia Bullos e Vinicius Borba agarravam-se à sua antiguidade como museus às suas carcaças de dinossauro e que, a partir das suas atividades subversivas no Estúdio Comunitário Radical, com seu assecla Nilson, ele começaria uma verdadeira revolução dentro dos Radicais, tomando finalmente o poder e transformando o Sarau em um local de apresentações somente das bandas denominadas “Coliformes Fecais” e “Água Sanitária”, mas isso é fofoca do povo e eu sei que o Gil William é o nosso Mahatma Ghandi e eu não vou publicar isso. Portadores de línguas viperinas dão conta de que Vinicius Borba perguntou “na lata” se a decisão do Mansur era irrevogável, mas a indagação tomou formato ambíguo e alguns se perguntaram, na saída do enorme estacionamento repleto de mitsubishis e ferraris, se o gaúcho, representante da ala “Paquitos” dos Radicais, não estaria, na verdade, com medo de que o Mansur voltasse atrás na sua decisão. (he, he, he). O fato é que o fato ocorreu e só nos resta lamentar tal episódio, uma vez que Mansur é dos pioneiros Radicais e a perda, que muitos julgam momentânea, é irreparável, não pela questão do cargo ocupado pelo companheiro, que male-male será substituído e vinha até treinando substitutos numa quase premonição, porém pela perda de um militante das primeiras horas, quando não se vislumbrava nada do que veio a acontecer e que foi ficando definitivo em nossas vidas, que é o movimento cultural local como um todo. Fica registrado aqui, neste nosso renomado veículo de comunicação, para conhecimento das gerações presentes e futuras, que a primeira reunião dos radicais livres foi na casa onde morava o Máximo. Que o primeiro sarau foi realizado na casa onde morava o Máximo. Que o primeiro estúdio foi na casa onde morava o Máximo. Que os ensaios com a “Bola Azul”, que culminaram com a nossa primeira vitória coletiva num festival de música, foram realizados na casa do Máximo. E chega de “pagação de pau” que nosso lema maior é: Se lasque doido! E disso a gente não esquece. Ah! Antes que eu me esqueça o que todos nós esquecemos no dia do sarau, por um lapso imperdoável de memória: Parabéns, Máximo Mansur, pelo seu aniversário. Que viva mais de cem!
*GT, segundo Borba, é Grupo de Trabalho
**Da Equipe do RN direto da Faixa de Gaza
EXTRA! EXTRA! Carta-renúncia de Mansur*
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo de São Sebastião coordenaram-se novamente e desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dita cultural dos chamados Radicais Livres e da espoliação de São Sebastião por este grupo econômico e financeiro internacional que os financiam a propósito da venda deste gorduroso alimento de origem italiana, fiz-me chefe de uma revolução pessoal chamada Quintas Musicais e venci. Iniciei o trabalho de libertação dos menos aquinhoados culturalmente e instaurei o regime de liberdade social para os mesários, djs e forrozeiros useiros e vezeiros de disquetes nos seus teclados de milhares de reais. Tive de renunciar. Voltarei nos braços do povo. As campanhas subterrâneas dos grupos internacionais ligados ao MPL e MST aliaram-se aos radicais livres revoltados contra o regime ditatorial com que sempre sonhei. Não querem que os djs sejam livres. Não querem que os mesários sejam independentes. Assumi o GT de Sonorização do sarau com duas míseras caixas de som e o deixo agora com toda uma estrutura de equipamentos no rack, nas caixas de frente e no retorno. Milhares de metros
de cabos para instrumentos e centenas de plugs novos e multicoloridos, mais dezenas de microfones para que o Gil William utilize como bem entender. Começamos com míseros 100 reais e deixo-vos agora com maravilhosos 300 reais, o que dá um lucro de 200% em dois anos. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender os interesses do povo que agora se queda desamparado diante do imperialismo de Dagomé e sua corja. Nada mais vos posso dar a não ser minha renúncia como prova de que não compactuo com essa ditadura cultural disfarçada de sarau. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo de São Sebastião, eu ofereço em holocausto a minha renúncia. Escolho este meio de sempre estar convosco. Quando Vinicius Borba e seus asseclas humilharem os grupos de axé-music, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando Julio César, com suas piadinhas infames, desabonar os grupos de forró da nossa localidade, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós, por vossos filhos, por vossos teclados e por vossos disquetes. Quando Hélio Júnio abrir a boca para vos vilipendiar dizendo que grupo é coisa de pagodeiro, sentireis no meu pensamento a força para a reação com vossos tantãs e pandeiros. O cavaco não se calará perante esta corja de pseudo-aculturados. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será vossa bandeira de luta. Cada palavra desta carta será uma chama imortal na vossa consciência de não-leitores e manterá a vibração sagrada para a resistência ao livro, ao disco e ao vídeo, as armas mais usadas pelos infames considerados cult’s. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória, aboletado sobre o trio elétrico da Administração Regional neste carnaval. Eu era escravo dos Radicais Livres e hoje me liberto para mim mesmo. Lutei contra a espoliação dos artistas humildes de São Sebastião. Lutei pela inclusão do Arrasta-Gatinha no sarau. Lutei para que os Vilões-do-forró pudessem se apresentar na casa de cultura. Eu cultuo os Feras do Baile e tenho todos os sete volumes dos seus discos envoltos em papel celofane debaixo do meu colchão que eu comprei baratinho na Star Móveis de São Sebastião para valorizar o comércio local. Jamais esquecerei da primeira vez que os Mascotinhos se apresentaram no Sarauradical e o chão do Via Livre tremeu. O ódio, as infâmias, as calúnias de Dagomé criador de comunidades baratas no orkut não abaterá meu ânimo. Eu vos dei trinta por cento da minha vida. Agora ofereço minha renúncia. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade representada pelo axé music e saio dos Radicais para entrar na História.
* Máximo Mansur é pretendente a organizador do carnaval de rua de São Sebastião.
Paulo Dagomé
“Radical News”, fevereiro de 2006.