Senhor Editor,
MILAGRE
Hosana! A última matéria publicada no D.O. nos traz um relato que, ao lê-lo, vi-me remetido a um passado mui recente, quando fomos informados, nós os oprimidos, de que nascera o messias-opressor-mirim-fabrício. Ora, somente Ele, o Messias-Opressor, poderia operar tal milagre. Explico-me: o Porco do Chico Malta vem, há quase um lustro, incomodando a família Sena, seja com sua língua infecta ou mesmo com sua fiunça inigualável. Passados, pois, cinco anos, eis que o Messias-Opressor, mal rompe a parede uterina, faz com que dois membros de honra da Confraria dos Oprimidos quebrem as amarras da opressão e, vorazes, valentes, destemidos e imbusbebáveis, submetam o Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - à humilhação pública, além de avarias diversas na lataria.
NOVO MEMBRO NA CONFRARIA
Assim, sugiro que o Secretário Geral da Confraria dos Oprimidos, cumprindo exemplarmente com suas funções regimentais, cadastre o Porco do Chico Malta no CANO - Cadastro Nacional dos Oprimidos, sob o número CANO/BA#000345/05, livro 4, folha 343. Segue modelo a ser utilizado pelo senhor secretário para efeito dos protocolos de cadastramento: "Eu, Berguer-seja-lá-quem-for, Secretário-Geral da Confraria dos Oprimidos, faço constar da Ata de Reunião Ordinária, realizada nesta data, a agregação ao convívio dos oprimidos do Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - que, doravante, passa a compor esta seleta congregação, cabendo-lhe, desde já, aceitar as leis a que estão submetidos todos os nossos confrades, o que inclui o cumprimento dos rituais básicos de nossa irmandade, quais sejam, a) proceder, após cinco suspiros, a enunciação de cinco lamentações, b) demonstrar, no olhar e no semblante, que a esposa (se a tiver) submete-o a humilhações diversas, c) estar certo de que, em qualquer circunstância de sua vida, há de levar um xeque-mate de Fábio Sena, d) certificar-se de que, se seu pão com manteiga cair, que caia com a manteiga beijando o chão; e) que, se algo tiver de dar errado, este algo fatalmente dará errado, f) que, se algo tiver 99% de chances de dar certo, aquele 1% fatalmente reinará; g) ter seus livros (incluindo a obra poética completa de Fernando Pessoa) emprestados e a certeza de que, sem dúvida, "never", h) estar certo de que, dinheiro, nem pensar, i) sossego, nem pensar. Cabe ao Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - agregar, sempre que puder, novo sortimento de dores ao seu acervo de lamentações. Assim, assino a presente ata e dou por empossado nosso novo confrade, cujo número é CANOjBA#000345j05".
CONFISSÕES DE UM OPRIMIDO
Recebi, no final da tarde de ontem, um e-mail cujo teor reproduzo integralmente abaixo:
"Eu, Camundongo - vulgo Porco do Chico Malta - faço saber a quem interessar possa que, na tarde do dia 19, fui surpreendido por Maurício e Fábio; que Maurício, tendo surgido do nada, abateu-se sobre meu ser indefeso e só e frágil e enfermo, e, dotada da ira de todos os deuses, espancou-me até perto da morte; que Maurício Sena trazia no olhar um misto de cólera e raiva e ira e fúria; que Maurício Sena, de cujos braços eu jamais me esquecerei, segurava-me com tal aderência que, num dado momento, supus-me um só com ele, que Maurício Sena, ignorando a presença de minha santa mãe, desferiu golpes múltiplos em todo o meu eu, inclusive no meu eu mais que profundo; que Maurício Sena, de cujo braço direito jamais me esquecerei, num dado momento, deu-me um golpe na altura do boca do "estango" que boa parte do pouco que havia comido naquele dia ficou, por assim dizer, liquidificado; que Maurício Sena, não se importando com nossa vizinhança que (eu quero crer) reprovava tal humilhação infligida a uma pessoa como a minha, cujo único pecado (é o que penso) seja uma certa fiunça pela manhã, além de avariar minha lataria, dizia-me impropérios do tipo: "toma, desgraçado, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma!"; que Maurício Sena, trazendo no olhar aquele mesmo misto de cólera e raiva e ira e fúria, desferiu, num só movimento, um golpe na altura de meu maxilar inferior, causando-me um tal prejuízo na arcada dentária, que meu sorriso se assemelha ao do Opressor-Mirim, inodontólogo; que Maurício Sena, tendo, por um átimo de tempo, olhado de soslaio, percebera que se aproximava de nós Fábio Sena, com um olhar que era um misto de cólera e raiva e ira e fúria; que Fábio Sena, não conformado em avariar-me somente com as mãos, agregou ao seu eu um pedaço de madeira (que, pelo contato, pude deduzir ser da família do pau-de-cedro); que Fábio Sena, impiedosamente, quebra-me cerca de cinco evas, digo, cinco costelas; que Fábio Sena, não tendo entendido meu gesto de carinho para com ele e família, resolveu amputar-me o braço; que Fábio Sena, ao tempo em que me batia, gritava-me: toma, ímpio, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma!"; que Jovita, mãe dos meus opressores, observando-me indefeso e só e frágil, disse-me tudo, menos que fosse bonito, que Márcia Sena (ou Castro, sei lá eu), ao longe, emitia gargalhadas de decibéis patagônicos, aumentando minha dor e minha vergonha pública; que a Mineínha (ah, a Mineínha), aquela a quem chamo de "mulher" de soldado, mal soubera de minha desgraça pública, ligara para o Sena Burguês - habitante dos pântanos -, dando-lhe conta dos infortúnios meus; que tudo isso, segundo uma análise de Rato, meu sobrinho, é o mesmo complô que elegeu Tancredo e que o levou à tumba; que, após ter sido atendido pelos enfermeiros selvagens do Samu, inda tive que ir a pé para casa, que esta lágrima, que ora verto, é o estandarte da agonia, que esta dor, que me corrói por dentro, seja-me, um dia, recompensada, porque metade mim é camun, e a outra metade, é dongo."
DIÁRIO DE UMA PATRICINHA
Anotações de uma adolescente em seu diário:
DIA 19
"Querido diário, hoje, quando ia pro colégio, vi que um rapaz, a quem todos chamam de Buja, estava batendo em outro rapaz, a quem chamavam de Camundongo. Vi também que o Buja, embora já tivesse danificado com boa parte da infra-estrutura do senhor camundongo, recebera o apoio de um outro rapaz que, por mais que aparentasse estar irado e zangado e encolerizado e enfurecido, olhava para a vítima com certo ar de misericórdia. E, diário, o que mais me deixou estupefacta, foi que ambos, Buja e esse outro rapaz, diziam, em uníssono: toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma ...
DIA 20
Querido diário, minha mãe, a mulher mais fofoqueira de toda a via-láctea, tendo conversado com dona Rosa, a mulher mais futriqueira de todo o universo, tomou conhecimento dos detalhes da chacina. Disse-me ela: filha minha, o elenco envolvido na chacina compunha-se de Fábio Sena, pivô, Maurício Sena, pavor, e o Porco do Chico Malta, vulgo camundongo, horror, e as mães dos mesmos. Filha minha, há indícios, ainda não confirmados pela investigação instaurada pelo técnicos do IML, de que o Porco do Chico Malta, vulgo camundongo, teria dito (ou emitido um grunhido), em meio aos escombros: "Alguém poderia, por gentileza, informar-me se o Conclave já decidiu quem será o nosso novo Pontífice?" Sabe, filha minha, surpreendeu-me que um homem de tão horrenda (uma fiunça, por assim dizer) aparência pudesse ter interesses tão, vamos dizer, eruditos. Ele também indagou se o Supremo já havia dado seu parecer sobre a intervenção do Governo Federal na Secretaria de Saúde do Rio.
DIA 21
Diário querido, hoje, no colégio, a professora pediu-nos que lêssemos uma das obras do escritor alagoano Graciliano Ramos. Disse-nos que devíamos escolher entre Angústia e Memórias do Cárcere.
REFLEXÕES DE UM TIO SOCRÁTICO
Em meio ao tumulto derivado da chacina camundonga, um homem, ao longe, observa e reflete:
“É ... quem diria? Meu sobrinho, ali, naquela poeira, submetido ao flagelo e à vergonha, nega, espezinha, expõe ao nada a moral da família. Ali está, meu sobrinho, um homem cujo destino estava traçado pelo desgoverno, pela falta de retidão, pela ausência de qualquer senso de integridade. Ali está, meu sobrinho Francisco, hoje Camundongo. Nossa linhagem foi corroída. Agora, os Malta nada mais são que a fiunça. Estamos todos reduzidos doravante a "fiunça".
Anghus Thiado das Dores
“Diário do Oprimido – Desesperados de todos os tempos, uni-vos! - O informativo dos inconformados”, nº 7.
MILAGRE
Hosana! A última matéria publicada no D.O. nos traz um relato que, ao lê-lo, vi-me remetido a um passado mui recente, quando fomos informados, nós os oprimidos, de que nascera o messias-opressor-mirim-fabrício. Ora, somente Ele, o Messias-Opressor, poderia operar tal milagre. Explico-me: o Porco do Chico Malta vem, há quase um lustro, incomodando a família Sena, seja com sua língua infecta ou mesmo com sua fiunça inigualável. Passados, pois, cinco anos, eis que o Messias-Opressor, mal rompe a parede uterina, faz com que dois membros de honra da Confraria dos Oprimidos quebrem as amarras da opressão e, vorazes, valentes, destemidos e imbusbebáveis, submetam o Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - à humilhação pública, além de avarias diversas na lataria.
NOVO MEMBRO NA CONFRARIA
Assim, sugiro que o Secretário Geral da Confraria dos Oprimidos, cumprindo exemplarmente com suas funções regimentais, cadastre o Porco do Chico Malta no CANO - Cadastro Nacional dos Oprimidos, sob o número CANO/BA#000345/05, livro 4, folha 343. Segue modelo a ser utilizado pelo senhor secretário para efeito dos protocolos de cadastramento: "Eu, Berguer-seja-lá-quem-for, Secretário-Geral da Confraria dos Oprimidos, faço constar da Ata de Reunião Ordinária, realizada nesta data, a agregação ao convívio dos oprimidos do Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - que, doravante, passa a compor esta seleta congregação, cabendo-lhe, desde já, aceitar as leis a que estão submetidos todos os nossos confrades, o que inclui o cumprimento dos rituais básicos de nossa irmandade, quais sejam, a) proceder, após cinco suspiros, a enunciação de cinco lamentações, b) demonstrar, no olhar e no semblante, que a esposa (se a tiver) submete-o a humilhações diversas, c) estar certo de que, em qualquer circunstância de sua vida, há de levar um xeque-mate de Fábio Sena, d) certificar-se de que, se seu pão com manteiga cair, que caia com a manteiga beijando o chão; e) que, se algo tiver de dar errado, este algo fatalmente dará errado, f) que, se algo tiver 99% de chances de dar certo, aquele 1% fatalmente reinará; g) ter seus livros (incluindo a obra poética completa de Fernando Pessoa) emprestados e a certeza de que, sem dúvida, "never", h) estar certo de que, dinheiro, nem pensar, i) sossego, nem pensar. Cabe ao Porco do Chico Malta - vulgo camundongo - agregar, sempre que puder, novo sortimento de dores ao seu acervo de lamentações. Assim, assino a presente ata e dou por empossado nosso novo confrade, cujo número é CANOjBA#000345j05".
CONFISSÕES DE UM OPRIMIDO
Recebi, no final da tarde de ontem, um e-mail cujo teor reproduzo integralmente abaixo:
"Eu, Camundongo - vulgo Porco do Chico Malta - faço saber a quem interessar possa que, na tarde do dia 19, fui surpreendido por Maurício e Fábio; que Maurício, tendo surgido do nada, abateu-se sobre meu ser indefeso e só e frágil e enfermo, e, dotada da ira de todos os deuses, espancou-me até perto da morte; que Maurício Sena trazia no olhar um misto de cólera e raiva e ira e fúria; que Maurício Sena, de cujos braços eu jamais me esquecerei, segurava-me com tal aderência que, num dado momento, supus-me um só com ele, que Maurício Sena, ignorando a presença de minha santa mãe, desferiu golpes múltiplos em todo o meu eu, inclusive no meu eu mais que profundo; que Maurício Sena, de cujo braço direito jamais me esquecerei, num dado momento, deu-me um golpe na altura do boca do "estango" que boa parte do pouco que havia comido naquele dia ficou, por assim dizer, liquidificado; que Maurício Sena, não se importando com nossa vizinhança que (eu quero crer) reprovava tal humilhação infligida a uma pessoa como a minha, cujo único pecado (é o que penso) seja uma certa fiunça pela manhã, além de avariar minha lataria, dizia-me impropérios do tipo: "toma, desgraçado, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma!"; que Maurício Sena, trazendo no olhar aquele mesmo misto de cólera e raiva e ira e fúria, desferiu, num só movimento, um golpe na altura de meu maxilar inferior, causando-me um tal prejuízo na arcada dentária, que meu sorriso se assemelha ao do Opressor-Mirim, inodontólogo; que Maurício Sena, tendo, por um átimo de tempo, olhado de soslaio, percebera que se aproximava de nós Fábio Sena, com um olhar que era um misto de cólera e raiva e ira e fúria; que Fábio Sena, não conformado em avariar-me somente com as mãos, agregou ao seu eu um pedaço de madeira (que, pelo contato, pude deduzir ser da família do pau-de-cedro); que Fábio Sena, impiedosamente, quebra-me cerca de cinco evas, digo, cinco costelas; que Fábio Sena, não tendo entendido meu gesto de carinho para com ele e família, resolveu amputar-me o braço; que Fábio Sena, ao tempo em que me batia, gritava-me: toma, ímpio, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma!"; que Jovita, mãe dos meus opressores, observando-me indefeso e só e frágil, disse-me tudo, menos que fosse bonito, que Márcia Sena (ou Castro, sei lá eu), ao longe, emitia gargalhadas de decibéis patagônicos, aumentando minha dor e minha vergonha pública; que a Mineínha (ah, a Mineínha), aquela a quem chamo de "mulher" de soldado, mal soubera de minha desgraça pública, ligara para o Sena Burguês - habitante dos pântanos -, dando-lhe conta dos infortúnios meus; que tudo isso, segundo uma análise de Rato, meu sobrinho, é o mesmo complô que elegeu Tancredo e que o levou à tumba; que, após ter sido atendido pelos enfermeiros selvagens do Samu, inda tive que ir a pé para casa, que esta lágrima, que ora verto, é o estandarte da agonia, que esta dor, que me corrói por dentro, seja-me, um dia, recompensada, porque metade mim é camun, e a outra metade, é dongo."
DIÁRIO DE UMA PATRICINHA
Anotações de uma adolescente em seu diário:
DIA 19
"Querido diário, hoje, quando ia pro colégio, vi que um rapaz, a quem todos chamam de Buja, estava batendo em outro rapaz, a quem chamavam de Camundongo. Vi também que o Buja, embora já tivesse danificado com boa parte da infra-estrutura do senhor camundongo, recebera o apoio de um outro rapaz que, por mais que aparentasse estar irado e zangado e encolerizado e enfurecido, olhava para a vítima com certo ar de misericórdia. E, diário, o que mais me deixou estupefacta, foi que ambos, Buja e esse outro rapaz, diziam, em uníssono: toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma, toma ...
DIA 20
Querido diário, minha mãe, a mulher mais fofoqueira de toda a via-láctea, tendo conversado com dona Rosa, a mulher mais futriqueira de todo o universo, tomou conhecimento dos detalhes da chacina. Disse-me ela: filha minha, o elenco envolvido na chacina compunha-se de Fábio Sena, pivô, Maurício Sena, pavor, e o Porco do Chico Malta, vulgo camundongo, horror, e as mães dos mesmos. Filha minha, há indícios, ainda não confirmados pela investigação instaurada pelo técnicos do IML, de que o Porco do Chico Malta, vulgo camundongo, teria dito (ou emitido um grunhido), em meio aos escombros: "Alguém poderia, por gentileza, informar-me se o Conclave já decidiu quem será o nosso novo Pontífice?" Sabe, filha minha, surpreendeu-me que um homem de tão horrenda (uma fiunça, por assim dizer) aparência pudesse ter interesses tão, vamos dizer, eruditos. Ele também indagou se o Supremo já havia dado seu parecer sobre a intervenção do Governo Federal na Secretaria de Saúde do Rio.
DIA 21
Diário querido, hoje, no colégio, a professora pediu-nos que lêssemos uma das obras do escritor alagoano Graciliano Ramos. Disse-nos que devíamos escolher entre Angústia e Memórias do Cárcere.
REFLEXÕES DE UM TIO SOCRÁTICO
Em meio ao tumulto derivado da chacina camundonga, um homem, ao longe, observa e reflete:
“É ... quem diria? Meu sobrinho, ali, naquela poeira, submetido ao flagelo e à vergonha, nega, espezinha, expõe ao nada a moral da família. Ali está, meu sobrinho, um homem cujo destino estava traçado pelo desgoverno, pela falta de retidão, pela ausência de qualquer senso de integridade. Ali está, meu sobrinho Francisco, hoje Camundongo. Nossa linhagem foi corroída. Agora, os Malta nada mais são que a fiunça. Estamos todos reduzidos doravante a "fiunça".
Anghus Thiado das Dores
“Diário do Oprimido – Desesperados de todos os tempos, uni-vos! - O informativo dos inconformados”, nº 7.
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on terça-feira, 3 de junho de 2008
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