Desventuras em série  

Postado por d.b em


Ou: A incrível história da sobrancelha voadora

Até aquele momento pessoa alguma imaginava que Saulo Alex, aquele rapaz dócil com cara de paspalho por quem ninguém dava nada, e que possuía um enorme complexo de inferioridade, pudesse fazer o que fez. Aliás todos ali naquele bar onírico (percebi pelas molduras de fumaça), já não se conheciam. Ali experimentamos os instintos mais primitivos do ser humano.
Primeiro por que das 72 opções de refeições e bebidas do cardápio do bar em questão, só era possível pedir cinco: entre elas, cerveja, porção de macaxeira frita e uma tal de seda que até hoje não tenho certeza do que possa ser); segundo, pela atmosfera de paranormalidade dos freqüentadores. Estou certo de que o cara enorme, de Rastafári, era capaz de entortar colher com os poderes de seu esquelético corpo, ou melhor, com o odor de seu esquelético corpo e, terceiro, pela atitude inesperada das únicas pessoas decentes que estavam no local: Juninho, homem branco e alto, nazista declarado ao qual devo dez reais; Saulo, não o Alex, nem o Madrigal mas o Dias, candidato a Presidência da República em 2010, negro de 1,32 m e que atualmente ocupa um cargo fictício no PT-DF; "Jonhweyne", um rapaz misterioso e fugaz que segundo dizem as más línguas, mantém um cabaré de cego nas proximidades do bairro São José; Laércio, um honroso pai de família que às vezes pede que a mãe lhe faça banana amassada com leite em pó, seu prato favorito; César Cavalcante, um famoso ator transformista
que se apresenta - dizem as más línguas - toda quinta-feira no Cabaré de "JohnWeyne"; Paulo Dagomé, cantor, compositor, artista plástico, produtor, reprodutor e procurado pela Justiça baiana; uma senhora muito invocada popularmente chamada Naná, que dias depois do evento fatí­dico soube-se que defendeu os treze filhos com uma força descomunal. Prova disso foi uma cadeira que foi reduzida ao tamanho de uma lata de cerveja; Nilson do violão que, durante a bagunça, roubou o violão da banda que estava se apresentando; Chiquinho e Xereta que recusaram-se a largar suas cervejas e brindavam cada soco que César Cavalcante levava (ou seja, eles brindaram muito) e por último o senhor A.C.N. (que recusou-se a ser identificado por medo de retaliações), vítima da violência brutal das gangues anárquicas da elitizada Asa Norte contra a inocente periferia sendinheirada e que teve o supercílio arrancado da cabeça por um soco fantasma (pois o agressor era muito branco, quase tênue) e que foi o estopim da guerra que se fez ali.
A confusão estava arranjada.
Ao saber do fato, Paulo Dagomé, mais conhecido como EI Bayanno, reuniu todos os integrantes para um concílio onde, calmamente, resolveríamos o fato, mas não deu muito certo pois Saulo (e até hoje não se sabe como um garoto de 1,29 m e 34,6 kg tenha tido coragem para tomar satisfações com um "skinréde" de 2,01 m no meio do território inimigo). Em meio à confusão, entre gritos e ameaças e xingamentos nunca antes ouvidos, o mesmo Saulo, o Alex, ficou com a difícil tarefa de gritar e gritar e gritar enquanto Juninho, “JohnWeyne” e Laércio socavam o agressor de A.C.N. que foi socorrido às pressas pelos outros membros da gangue.
Eram copos voando, garrafas sendo quebradas, cadeiras se transformando em tacapes e loco a briga havia se generalizado. A gangue eletrizada veio para cima com fúria destruidora e a organização posteriormente conhecida com Radicais Livres, um grupo de artistas de alto gabarito com representação política no Congresso e, pelo que se viu, possui também um braço armado às suas expensas. Este braço é carinhosamente chamado de Mazim, um sujeito sem piedade que havia conseguido escapar de cinco tiros de fuzil e ter eliminado em uma simples incursão toda gangue de coroinhas da Paróquia de Nossa Senhora dos Afogados e chegou ao bar distribuindo socos e tapas em quem quer que tivesse na frente (até Laércio acidentalmente teve a mandíbula deslocada).
Então, quando finalmente os arruaceiros destruíram todo local (me lembro de ter visto uma mesa com formato de cabeça) viu-se de pé apenas a Gangue Radical e Saulo Dias, não encontrando mais ninguém para socar, se contentou em espancar o esquelético Rastafári que tentava se esconder na geladeira do bar.
A polícia chegou (estava esperando que tudo acabasse) mas todos os meliantes já haviam fugido, exceto A.C.N. que, ainda atordoado com o soco, não conseguiu fugir e foi levado á prisão na 30ª DP em São Sebastião, como único responsável pela desordem, onde permanece preso até que sejam ressarcidos ao dono os danos.

S. Madrigal é pugilista e é bublée do pugilista jovem do filme Rocky Balboa.
“Radical News”, fevereiro de 2007, p. 4.

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