
Encravada num vale vizinho ao Lago Sul, São Sebastião se transforma, com a performance de músicos, artistas e poetas, no Sarau Radical
Marcelo Abreu
Da equipe do Correio
Oito horas da noite, quarta-feira. A rua, a mais movimentada da cidade, começa a se agitar. Uns vêm de carro, outros de bicicleta. Há quem venha a pé. E logo o espaço fica lotado. Gente nas mesas. Gente esperando mesa. Gente. E é de gente, da melhor categoria - gente que emociona, pulsa, chora, ri, encanta e se encanta – que se enche aquele lugar. Num canto, num minipalco armado ao lado de equipamentos de som, sobe um rapaz de óculos gigantescos e boina vermelha. Ele diz uma poesia. A platéia se agita. Aplaude-o. Ele fala de amor e solidão. Sentimentos que cada um ali, em menor ou maior intensidade. Já viveu.
Estamos em São Sebastião, lugar sem cinema, teatro, lazer. Um lugar onde um poeta de 14 anos que atende pelo nome de Devana Babu escreveu:
“Vivemos à margem da cultura cara que os artistas vendem... Às margens das Asas e dos Lagos”.
Estamos na Avenida São Sebastião, na Pizzaria Via Livre. Lugar, caro leitor, de gente. É bom sentar-se. A princípio, para quem não sabe do que se trata, o barulho de vozes e aplausos causa estranheza. Lugar que, entre uma garfada e outra de pizza, um gole de cerveja, se escutam e se vêem poetas, cantores, atores, dançarinos fazendo o que melhor sabem: emocionar quem os ouve e os enxerga.
São oito horas da noite. E a noite apenas começa. Do outro lado da ponte (expressão que os moradores usam para dizer quem mora em São Sebastião), a vida se agiganta. Brasília não conhece São Sebastião. “E a gente não consegue ultrapassar a ponte”, diz um poeta da cidade, de 41 anos, 1,67m, negro, pobre, 2º grau, baiano de Vitória da Conquista e pai de Devana Babu. Ele mora em São Sebastião desde 1997. Para sustentar a mulher e seis filhos, trabalha como vigilante de uma escola pública. Nas horas vagas, vira poeta, cantor e artista plástico. Ele se chama Paulo Dagomé. Com um grupo de amigos, mudou a cidade. E fez da pizzaria um palco onde cabem todas as expressões. Toda a poesia. Todo o deleite. Toda a catarse.
Coisa linda
A rua, a principal da cidade, está animada. Alguns souberam pelo Orkut Sim, há uma comunidade na internet dedicada ao sarau. Dentro da pizzaria, uma gente irreverente diz a que veio. E cada vez chega mais um. É assim uma vez por mês. É assim há um ano e quatro meses. Antes. a loucura cultural era na casa de um cantor da cidade. O grupo cresceu. não cabia mais naquele espaço. Paulo Dagomé e os amigos t:iveram a idéia de levar os saraus para um lugar maior. Onde? Num bar? Numa praça? Praça? Em São Sebastião não há, praças.
Os artistas levaram a proposta ao dono da pizzaria. Ele topou. Há 16 meses, a noite da cidade mudou. O que era um simples recital de poesias virou o Sarau Radical. E põe radical nisso. Poetas, dançarinos, artistas plásticos, atores e até jogadores de xadrez, em competições acirradas. Estão todos lá. Nunca mais São Sebastião foi a mesma. Vestido com uma capa preta e máscara, o estudante Diogo Ramalho, 20, recita Olavo Bilac. A platéia. extasiada, ouve. "Adoro Via Láctea. É a poesia mais bonita dele", diz o poeta que adora Drummond e Vinícius de Morais.
A poesia dá um tempo. Um grupo de hip hop entra em cena. E eis que, de uma cadeira de rodas, um rapaz franzino fica no meio do grupo. Apenas com as mãos, Rafael Antônio Nascimento, de 19 anos, dá um show. Chega ao limite da perfeição. A platéia vai à loucura. Assovia. Ninguém acredita que ele é capaz de fazer tudo aquilo. Molhado de suor, o rapaz sai em êxtase: '"Minha vida é dançar. Dançando esqueço qualquer diferença". O rapaz que nunca andou virou estrela do grupo Improviso de Rua.
Tomando mais um copinho de cerveja, a empresária Mari Belo, 55, vidra os olhos no que assiste. "Sempre ouvir dizer que havia um lugar aqui na cidade onde a juventude fazia coisas lindas. Hoje, comprovei. E encontrei jovens declamando, cantando, representando", vibra. E programa-se: "Pode ter certeza que mês que vem estarei aqui novamente”.
As atrações se sucedem. Mais shows, mais poesias, mais esquetes (pequenos quadros teatrais). Mais hip hop, mais jogos de xadrez. O cantor Máximo Mansur, 27, profetiza: "A salvação de São Sebastião é a arte". O cantor e ator lsaac Mendes, 19, de touca vermelha e óculos gigantescos arrasa na performance. Diz ser Bob Tosh (mistura de Bob Marley e Peter Tosh). A pizzaria quase vem abaixo. "Adoro satirizar os poetas do parnasianismo, com suas poesias certinhas", provoca ele. O poeta Carlos Augusto Cacá, de 46 anos, saiu de Taguatinga para se juntar aos artistas de São Sebastião. "É a única forma de dizer o que a gente pensa e sente", avalia Herline Dias, 19, estudante de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, canta e declama Cecília Meirelles, acompanhada de um violonista. A galera a aplaude animadamente.
O grupo de rock Orgasmo, formado por quatro rapazes de 18 e 19 anos de idade, detona. O apresentador da festa, o ator Júlio César Cavalcante, 21, premiado em Brasília, arranca gargalhadas do público. A irreverência dele contagia. O homem sozinho numa mesa num canto se permite sorrir. Gente de todas as idades está ali. A rua está lotada. É meia-noite.
Paulo Dagomé, o responsável por essa loucura cultural, sobe ao palco. Com sua banda Depois do Começo, canta músicas de sua autoria e de compositores conhecidos. Não há quem fique sentado. A pizzaria treme. O garçom faz malabarismos para não deixar a bandeja cair. Encharcado de suor e emocionado, Paulo falou ao Correio: "Aqui, não é só a cidade da hantavirose e da dengue. Aqui tem gente, vida, cultura e arte. E será somente pela arte que a vida nesse lugar valerá a pena". E lamenta os impenetráveis - e imensuráveis - 25 km que separam São Sebastião do Plano Piloto: "A gente nunca consegue ultrapassar a ponte e chegar do outro lado".
Naquela pizzaria, encravada num vale, a vida tomou forma. Escancarou-se, incuravelmente. E São Sebastião vive, mesmo que seja apenas uma vez por mês, seus melhores dias. E que venham seus bravos, tresloucados e párias poetas. Seus párias atores, cantores, dançarinos. Seus artistas. E que venha sua gente. A melhor tradução daquele lugar. O seu melhor cartão-postal.
TEATRO - O ator Júlio César Cavalcante (D) diverte a platéia com a irreverência de suas apresentações
XADREZ - Os enxadristas se concentram em um canto, enquanto o público do sarau se diverte
MÚSICA - Organizador do sarau, o porteiro-artistas Paulo Dagomé canta com sua banda Depois do Começo
POESIA - Ao som do violão a estudante Herline Dias canta e declama belos poemas de Cecília MeirellesFonte: Correio Braziliense, 27 de novembro de 2005, Cidades, p. 36.
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on quinta-feira, 5 de junho de 2008
at 06:34
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