Fobias  

Postado por d.b em

Todos os dias, aguardava ansioso aquele momento sublime. Foi a época que mais me apeteceu andar de ônibus.
Não que adorasse esgueirar-me por entre a multidão hirta de passageiros, um mais mal encarado do que o outro. Não! Definitivamente. Até por que sofria de oclofobia e sabia que a qualquer momento poderia morrer num desses expressos da vida. O Doutor Fulano de Tal havia dado o diagnóstico fatídico e categórico. Desde então eu acreditava piamente que morreria de oclofobia. Foi aí que decidi evitar grandes multidões: primeiro deixei a igreja, justificando a não freqüência por motivos de contradição ideológica. Tive até que criar toda uma teoria comportamental para explicar às pessoas por que diabos eu havia largado. Depois tive que trancar a matrícula na faculdade, sair da academia e comprar uma bolha antibacteriana para me confinar (a bolha não deu certo por causa de um óbice claustrofóbico que me apoquentava o espírito).
Um dia, por uma dessas artimanhas do acaso, precisei tomar um ônibus, contra minha vontade, é claro. Meu fusca havia enguiçado num lugar ermo e sem expectativas. Claro está que me sentia muito mal no fusca. Ele é demasiado apertado, parece que a qualquer momento irá se transformar em um minúsculo pontinho de lata... Mas era isso ou o expresso. Além do mais o fusca é bem mais barato do que um carro que certamente eu me sentiria confortável, tipo... uma Ducato com apenas o acento de motorista. E por falar em expresso ele estava chegando. Primeiro passou um muito cheio... Depois um muito vazio, mas quando eu vi uma senhora gorda (nota: definitivamente nada contra pessoas adiposas desde que elas não se aproximem), com uma caixa enorme de isopor na cabeça que provavelmente estava cheia desses salgados fritos e gordurosos que fazem a festa dos trabalhadores pendulares, desisti imediatamente. Como eu sofria de adipofobia (N. do R. T.: Adipofobia – medo de comidas gordurosas, de acordo com o Aurelino. Aurelino mesmo!), preferi não me arriscar, uma vez que existe uma probabilidade enorme de um desses expressos tombarem. Seria terríveis todos aqueles salgados em cima de mim. Esperei mais um pouco. Uma hora depois veio o expresso. Não percebi de imediato nenhum movimento estranho e como a vida é um risco iminente, resolvi entrar. Com uma olhadela rápida de mestre oclofóbio, diagnostiquei ambiente sem grandes perigos. Havia dois trabalhadores mal remunerados, pois caso fosse bem remunerado não estaria andando de ônibus: uma empregada doméstica que provavelmente se chamava Claudete e, pelo perfume, acabara de levar uns pegas de um funcionário dos Correios; um senhor com uma mala de viagem, que tomei o cuidado de sentar-me num lugar onde tivesse a menor repulsividade possível, ou seja, diametralmente oposto. Todos os outros acentos estavam vazios. Paguei e sentei-me por que havia pago.
Mal o expresso começa a andar eu começo a dormir. Isso se deve a narcolepsia que possuo (N. do R. T.: Narcolepsia – sono súbito e incontrolável, aparentemente sem motivo que ocorre várias vezes ao dia). Isso explica meu modo de dirigir e o porquê de fazer ziguezagues ou mesmo movimentos bruscos para evitar dormir ao volante do nefasto fusca.
Quando acordei sobressaltado por uma trepidação, estava numa atmosfera diferente: “era noite clara e a luz da lua prateava nossas peles morenas”. Caso fosse um romance, assim começaria. A noite, de fato, estava clara. Clara e amarelada por causa daqueles postes com aquelas luzes amarelas que dão uma aparência de que as cidades estão sempre empoeiradas.
Eu sentia um cheiro delicioso e indescritível. Que cheiro seria aquele mesmo? Olhei do meu lado e o acento já não se encontrava vazio. Estava preenchido por uma linda mulher, de cabelos louros e sorriso largo e branco e cheio. Não que ela tivesse sorrido para mim. Isso eu apenas imaginei e como eu não tinha nenhuma fobia relacionada às mulheres senão a xifrofobia (N. do R. T.: Xifrofobia – pavor de saber estar sendo corneado), sorri-lhe um sorriso como que para felicitar-lhe a beleza loura.
Sorvi-lhe o perfume com todos os poros do meu corpo, apenas para ver se me embriagaria naquele sorriso que ela não deu. Consegui, estranhamente e a pouco custo energético, me manter acordado.
Tentei ser discreto olhando pela janela sem interesse, por que, na verdade, era ela que eu queria olhar. Quando o expresso dava uma sacolejada, eu aproveitava para lançar-lhe um olhar para que ela me percebesse sem perceber.
Sete paradas antes ela desceu e levou consigo o perfume... Era um odor doce, quase podia sentir o gosto. Era de que mesmo? Nem imaginava que não andaria de fusca nem tão cedo.
O fusca foi para a oficina e todos os dias eu tomava o ônibus na esperança de encontrar a mulher loura com aquele cheiro...
Ah, lembrei! Era chocolate com avelã. Sempre gostei de chocolate com avelã, ou seja, eram duas coisas que eu gostava muito: mulher e chocolate com avelã.
E assim foi durante anos, entre um expresso a outro. Entre um faro e outro, entre sabores diferentes. Jamais outra vez tive narcolepsia nos ônibus. Sempre na expectativa de encontrá-la, isso acabou se tornando uma obsessão obsoleta ou mórbida.
Nesse meio tempo, casei-me, tive filhos, uma separação trabalhosa e uma úlcera que quase me matou, mas sonhava todo dia com a moça com cheiro de avelã.
Alguns anos depois eu a encontrei. Ela já não era tão moça – nem eu. Seus cabelos não eram mais tão louros, seu sorriso não era mais tão largo e branco e cheio. Não tinha a leveza inocente de antes. Não se podia mais encontrar o calor acolhedor de seus olhos dantes tão altivos, hoje tão melancólicos.
Quem sabe as circunstâncias lhe haviam talhado essa paródia de si mesma; talvez tão desiludida, seu rosto assumira uma expressão grave e sólida como a do expresso que ela infalivelmente tomava todas as manhãs ou tardes ou noites. Por tantas vezes assumira a impessoalidade e disfarçara-se em mil rostos distintos que evocara a própria personalidade do expresso de todas as manhãs. Toda ela era apenas o expresso. Suas angústias e medos, seus desejos mais secretos ou tórridos, seus pecados mais ocultos e suas esperanças, se é que lhe restava alguma, não tinha a menor importância no meio da mesma multidão. Agora, era toda lata e motor e engrenagem. Era um expresso somente.
S. Madrigal
"Radical News", julho de 2007, p. 2.

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