Ou: Canção da Ausência
Ou: Eu tô doido... Eu tô doido... Eu tô doido... Eu tô doido...
Essa carta é impessoal. É homônima, anacrônica, metafísica e objetiva. Ela não fala de saudades, nem despedidas ou desamores. Essa carta fala de flores... Talvez de começo, jamais de fim. Pode falar de lágrimas, mas nunca de choro, ou dor, ou da pipa vermelha voando solitária no céu cinzento.
Mas como falar de começo sem beijar o sol que se põe na linha imaginária do horizonte??? E como falar só de pipas se o que temos são balões, e confetes, e carnaval, e sangue na neve???
Improvável??? Não!!!
Talvez eu esteja tão louco a ponto de imaginar que não seja preciso escrever nada além das reticências... (ou das flores). Por que na realidade o vazio que se sente em uma despedida é tão palpável quanto as reticências de uma frase incompleta. Então chegamos ao meio do caminho e percebemos que as coisas não são tão pesadas como parecem, mas são leves, traiçoeiras e insustentáveis como o tempo.
Sei que parece loucura, mas não é para ser romântico mesmo: é para ter peso!!! E quando tudo finalmente virar pó, estarei sentado numa nuvem de chuva, terminando uma carta interminável que fala de flores no asfalto.
Caminhando contra o vento, nada no bolso ou nas mãos... Eu vou... E já não vejo uma carta, mas a crônica da carta interminável, impermeável e cheia de erros de português.
E, olhando pela janela embaçada do carro, tentando acomodar os pensamentos no travesseiro improvisado num pequeno espaço entre a poltrona da frente e um beijo molhado, penso que tudo poderia apenas ter sido um sonho de superfície... Mas não é!!! Por que na manhã seguinte toda realidade de prédios, e bares, e ruídos assustadores caem como uma bigorna no dedão do meu pé (e que provoca uma dor real e insuportável como o pestinha que passou a noite toda chorando na poltrona ao lado).
Mas agora não tem importância e nada faz sentido. E nem é para fazer!!!! Se fizesse, não seria eu... Seria o FHC ou na pior das hipótese o Coelhinho da Páscoa.
E eu estarei lá onde o vento corta o Cruzeiro do Sul; você aqui, onde a cachoeira esconde o fim do arco-íris de cores fluorescentes e já não seremos, nem estaremos. Nossa existência não terá passado de impulsos eletromagnéticos reconstituindo um instante que não se pode reconstituir... Essa é a paráfrase da metafísica do amor e da morte que tanto preguei em meu reinado delirante de um só súdito (que faleceu de cirrose no verão passado).
Não queria ter falado de saudades, nem de fins, nem despedidas... Mas foi só o que consegui escrever. E essa crônica, que era uma carta e agora já nem forma possui, será apenas a lembrança quente e úmida do meu último inverno no paraíso.
S. Madrigal
"Radical News"

This entry was posted on quarta-feira, 4 de junho de 2008 at 06:53 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

1 comentários

Saudade, solidão, tudo é fera, tudo devora, "é amiga da horas, prima irmã do tempo, e faz nossos relógios caminhar em lento, causando um descompasso no meu coração". O fim que tanto repugnas-te meu nobre Madrigal, é se não o recomeço de tantos outros fins ou talvez "pra sempreS", mas que renascem a cada passo e cada escolha que fazemos ou deixamos que façam em nossos nomes, mas o fim, pode ser tão só o fim, e nada mais, e isto se dá na proporção em que nossas forças se esvaem na tentativa de recomeçar. Mas o fim nem sempre denota o estado do mal, tampouco o limite das tentavas, ora não é este o mais querido de todas as novelas? Ou até mesmo o mais aguardado pelos que sofrem o termíno de uma vida desgraçada? Contudo o fim só pode acontecer quando aquele vazio que se sente em uma despedida que não se pode materializar, Dom Madrigal, é a ultima expressão que alguém que não foi concebido para perder, mas aceita a derrota como se o fim fosse a verdade... Sempre há esperança..

14 de julho de 2008 às 18:52

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