“Pobre é uma desgraça!"...
Foi o que disse uma senhora de ar circunspeto quando um cidadão de aparência duvidosa tomou sua vez na fila do Banco. Não a fila de um banco. As pessoas não fazem fila para sentarem-se em um país como o nosso. Então não venham perguntar se era um banco ou um Banco. Até por que, se desse margem a dúvida, não teria o menor problema já que o fato principal era a ação de um cidadão que acabara de tomar a vez de uma velhinha numa fila. Ora, por que diabos eu tô me explicando?
Tá bom, pode substituir a fila do Banco pela fila de um Supermercado no centro da cidade.
De certa forma eu devo concordar com a cauta senhora, muito embora eu também seja pobre.
Esse conceito, no entanto é de conteúdo duvidoso. Conheço muita gentinha aí podre de rica, mas são pobres do mesmo jeito.
Algum tempo atrás rolava nos sites mais variados como se diagnosticava um pobre. Aliás, referiam-se à pobreza como doença uma vez que alertavam os internautas dos "sintomas", como, por exemplo, juntar aqueles pedacinhos de sabonete que todos odeiam usar e fazer grande ao final do mês, ou aquele que fica em cima da casa rodando a antena e gritando: "já tá bom?". Além de outros que em minha tenra idade já não consigo lembrar (deve ser conseqüência dos entorpecentes ou intoxicação com minha própria comida!!!). A meu ver isso não é ser pobre: é ser econômico – exageradamente, devo dizer, mas é uma espécie de economia. como é economia um rico renomado que conheço comprar dois bifes: um para ele, outro para a esposa. E agora, quem é o pobre????
Pobre é aquele rico mal educado do carrão que dá dedo no trânsito quando você inconscientemente não cede passagem. Pobre é aquele pobre que não tem onde cair morto e pensa que é o tal só por que é o encarregado geral vice-substituto do substituto do vice gerente da bodega do Zé. É aquele filhinho de papai que ateia fogo em índio só pra ver a fumaça... É o incauto que rouba um aposentado, espanca-o e depois vai se vangloriar nas rodinhas dos outros pobres que vão rir da atrocidade e depois terminar de fumar seu baseado sem o menor peso na consciência. Essa sim é uma pobreza que é doença.
Ser pobre não é questão de dinheiro. É condição de espírito.
Somos pobres por imperícia, imprudência e negligência quando poderíamos ajudar alguém e não o fazemos; quando fingimos que estamos dormindo no ônibus para não ceder lugar para a velhinha que vem se aproximando; quando agimos por egoísmo e magoamos aqueles que nos amam; quando não perdoamos nosso próximo ou a nós mesmos; quando não devolvemos alguns centavos do troco excedido ou assaltamos milhões em um banco do Ceará.
Precisamos, no entanto, procurar meios de enobrecer nossa humanidade simplória e egocêntrica e elevarmo-nos como pessoas. Em outras palavras, transcender. Nossa evolução como civilização dependerá do que faremos conosco, de que tipo de seres humanos nos tornaremos: ricos ou pobres.
Depois desse dia jamais outra vez cortei fila na frente das velhinhas...
S. Madrigal é mentiroso e finge que dorme para não ceder assento para as velhinhas.
“Radical News”, junho de 2008, p. 3.
Foi o que disse uma senhora de ar circunspeto quando um cidadão de aparência duvidosa tomou sua vez na fila do Banco. Não a fila de um banco. As pessoas não fazem fila para sentarem-se em um país como o nosso. Então não venham perguntar se era um banco ou um Banco. Até por que, se desse margem a dúvida, não teria o menor problema já que o fato principal era a ação de um cidadão que acabara de tomar a vez de uma velhinha numa fila. Ora, por que diabos eu tô me explicando?
Tá bom, pode substituir a fila do Banco pela fila de um Supermercado no centro da cidade.
De certa forma eu devo concordar com a cauta senhora, muito embora eu também seja pobre.
Esse conceito, no entanto é de conteúdo duvidoso. Conheço muita gentinha aí podre de rica, mas são pobres do mesmo jeito.
Algum tempo atrás rolava nos sites mais variados como se diagnosticava um pobre. Aliás, referiam-se à pobreza como doença uma vez que alertavam os internautas dos "sintomas", como, por exemplo, juntar aqueles pedacinhos de sabonete que todos odeiam usar e fazer grande ao final do mês, ou aquele que fica em cima da casa rodando a antena e gritando: "já tá bom?". Além de outros que em minha tenra idade já não consigo lembrar (deve ser conseqüência dos entorpecentes ou intoxicação com minha própria comida!!!). A meu ver isso não é ser pobre: é ser econômico – exageradamente, devo dizer, mas é uma espécie de economia. como é economia um rico renomado que conheço comprar dois bifes: um para ele, outro para a esposa. E agora, quem é o pobre????
Pobre é aquele rico mal educado do carrão que dá dedo no trânsito quando você inconscientemente não cede passagem. Pobre é aquele pobre que não tem onde cair morto e pensa que é o tal só por que é o encarregado geral vice-substituto do substituto do vice gerente da bodega do Zé. É aquele filhinho de papai que ateia fogo em índio só pra ver a fumaça... É o incauto que rouba um aposentado, espanca-o e depois vai se vangloriar nas rodinhas dos outros pobres que vão rir da atrocidade e depois terminar de fumar seu baseado sem o menor peso na consciência. Essa sim é uma pobreza que é doença.
Ser pobre não é questão de dinheiro. É condição de espírito.
Somos pobres por imperícia, imprudência e negligência quando poderíamos ajudar alguém e não o fazemos; quando fingimos que estamos dormindo no ônibus para não ceder lugar para a velhinha que vem se aproximando; quando agimos por egoísmo e magoamos aqueles que nos amam; quando não perdoamos nosso próximo ou a nós mesmos; quando não devolvemos alguns centavos do troco excedido ou assaltamos milhões em um banco do Ceará.
Precisamos, no entanto, procurar meios de enobrecer nossa humanidade simplória e egocêntrica e elevarmo-nos como pessoas. Em outras palavras, transcender. Nossa evolução como civilização dependerá do que faremos conosco, de que tipo de seres humanos nos tornaremos: ricos ou pobres.
Depois desse dia jamais outra vez cortei fila na frente das velhinhas...
S. Madrigal é mentiroso e finge que dorme para não ceder assento para as velhinhas.
“Radical News”, junho de 2008, p. 3.
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on terça-feira, 17 de junho de 2008
at 13:07
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