É sem pejo que declaro que, quando fui visitá-lo pela primeira vez, achava-me possuído pela ojeriza criada, ao longo do tempo, pelos ocupantes anteriores do cargo que ele então ocupava na administração local, uma vez que a maioria sempre se mostrou despreparada, arrogante ou antipática para não dizer incompetente ou tudo isso junto principalmente no quesito democracia e sempre passavam aquela impressão que sentia Fernando Sabino ao, eventualmente, procurar um mecânico de automóveis e sempre ir embora com a sensação de que fora passado para trás.
O autoritarismo que surge naturalmente em quem recebe posição de mando sem o preparo intelectual necessário é algo difícil de ser negado e convivemos muito com isso, seja em governos à direita, seja à esquerda do espectro político. Porém, que grata surpresa encontrar naquele lugar um espírito altamente democrático, absolutamente simpático, articulado, intelectualmente preparado, boa praça e bom papo na figura do Sr. João Bosco, que durante o ano de 2005 dirigiu elegantemente a Diretoria de Cultura de São Sebastião.
Passava eu, então, no seu gabinete, não apenas para resolver questiúnculas afeitas à cultura local, segmento no qual milito diuturnamente, mas também para a um cafezinho e para a discussão de temas de interesse comum. Sim! Eu, esquerdista convicto, militante petista roxo, quero dizer, vermelho, membro da resistência cultural local, tinha prazer em discutir com "seu João" os temas mais variados. Mais prazer até do que com certos "companheiros".
Mente aberta. Espírito solidário. Alma sã.
Ainda que engessado pelas limitações orçamentárias, transpirava transparência, ao discorrer sobre estas limitações, o que reforçava em mim a ilusão de que há gente decente trabalhando nos gabinetes do poder.
A maior surpresa, porém, veio no mês passado, com a súbita exoneração de "seu João".
Não sei se pensam como eu os outros atuantes da cultura local em relação a ele e eu acho difícil, mas pode ser que apenas eu tenha sido tomado por este surto de simpatia por aquele senhor de cabelos grisalhos e aspecto bonachão, que se divertia à larga nos nossos saraus com a família, amigos e colegas, demonstrando também a possibilidade real de convivência entre as cores ideológicas num ambiente de fraternidade e respeito, onde as diferenças são esquecidas, a trégua é estabelecida e todos os lados podem refletir sobre suas falhas e potencialidades e emergir melhores e mais "civilizados" no sentido de urbanidade que o termo agrega.
Não causa surpresa, porém, a forma truculenta como a coisa se dá. Ninguém sabe os motivos. Ninguém sabe a razão. Ninguém sabe o porquê da exoneração de seu João. Ninguém ousa comentar o fato. Há um véu e uma soturnidade pairando sobre nós. Ninguém sabe de onde surgirá seu substituto, ainda que saibamos que não será alguém da nossa cidade. Ninguém será consultado. Ninguém será informado de nada, como no caso da desinformação geral de que fomos vitimas quando do surto de hantavirose, de triste lembrança.
Tanto a exoneração quanto a nomeação serão empurrados goela abaixo da comunidade, como é comum.
Fica, porém, aqui neste jornal de terceira, a homenagem dos chamados Radicais Livres Sociedade Anônima a este que ouso chamar de Radical Livre Honorário, a mais alta distinção que, do alto da nossa humildade, podemos conceder a alguém a quem estimamos e, fôra eu e Assis Chateaubriand, meu ídolo, criaria aqui e agora a Grã-Ordem do Candango Radical, para distinguir 'seu João'.
E mais não há que diga.
Paulo Dagomé
“Radical News”
O autoritarismo que surge naturalmente em quem recebe posição de mando sem o preparo intelectual necessário é algo difícil de ser negado e convivemos muito com isso, seja em governos à direita, seja à esquerda do espectro político. Porém, que grata surpresa encontrar naquele lugar um espírito altamente democrático, absolutamente simpático, articulado, intelectualmente preparado, boa praça e bom papo na figura do Sr. João Bosco, que durante o ano de 2005 dirigiu elegantemente a Diretoria de Cultura de São Sebastião.
Passava eu, então, no seu gabinete, não apenas para resolver questiúnculas afeitas à cultura local, segmento no qual milito diuturnamente, mas também para a um cafezinho e para a discussão de temas de interesse comum. Sim! Eu, esquerdista convicto, militante petista roxo, quero dizer, vermelho, membro da resistência cultural local, tinha prazer em discutir com "seu João" os temas mais variados. Mais prazer até do que com certos "companheiros".
Mente aberta. Espírito solidário. Alma sã.
Ainda que engessado pelas limitações orçamentárias, transpirava transparência, ao discorrer sobre estas limitações, o que reforçava em mim a ilusão de que há gente decente trabalhando nos gabinetes do poder.
A maior surpresa, porém, veio no mês passado, com a súbita exoneração de "seu João".
Não sei se pensam como eu os outros atuantes da cultura local em relação a ele e eu acho difícil, mas pode ser que apenas eu tenha sido tomado por este surto de simpatia por aquele senhor de cabelos grisalhos e aspecto bonachão, que se divertia à larga nos nossos saraus com a família, amigos e colegas, demonstrando também a possibilidade real de convivência entre as cores ideológicas num ambiente de fraternidade e respeito, onde as diferenças são esquecidas, a trégua é estabelecida e todos os lados podem refletir sobre suas falhas e potencialidades e emergir melhores e mais "civilizados" no sentido de urbanidade que o termo agrega.
Não causa surpresa, porém, a forma truculenta como a coisa se dá. Ninguém sabe os motivos. Ninguém sabe a razão. Ninguém sabe o porquê da exoneração de seu João. Ninguém ousa comentar o fato. Há um véu e uma soturnidade pairando sobre nós. Ninguém sabe de onde surgirá seu substituto, ainda que saibamos que não será alguém da nossa cidade. Ninguém será consultado. Ninguém será informado de nada, como no caso da desinformação geral de que fomos vitimas quando do surto de hantavirose, de triste lembrança.
Tanto a exoneração quanto a nomeação serão empurrados goela abaixo da comunidade, como é comum.
Fica, porém, aqui neste jornal de terceira, a homenagem dos chamados Radicais Livres Sociedade Anônima a este que ouso chamar de Radical Livre Honorário, a mais alta distinção que, do alto da nossa humildade, podemos conceder a alguém a quem estimamos e, fôra eu e Assis Chateaubriand, meu ídolo, criaria aqui e agora a Grã-Ordem do Candango Radical, para distinguir 'seu João'.
E mais não há que diga.
Paulo Dagomé
“Radical News”
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on quarta-feira, 4 de junho de 2008
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