Teatro que transforma vidas  

Postado por d.b em

Estudantes de São Sebastião se preparam para encenar Os Saltimbancos,
terceira peça que levam ao palco

Teatro que transforma vidas

Grupo de teatro do Centro Educacional nº 1 de São Sebastião ajuda alunos a recuperar a auto-estima, descobrir o seu potencial, e a superar dificuldades para alcançar objetivos

João Rafael Torres
Da equipe do Correio

Ser sobrinho do seu Tião não é fácil. O tio nem sempre é camarada. Pão-duro, impõe limites severos à parentada. Mesmo assim, os sobrinhos não se importam. Defendem o tio. Lutam por ele. Seu Tião é a cidade de São Sebastião, na linguagem dos jovens moradores de lá. Os sobrinhos estudam todos numa mesma escola: o Centro Educacional nº 1, mais conhecido como Centrão. São adolescentes que descobriram o teatro e, por meio dele, conseguiram transformar a própria vida.
O grupo de teatro Os sobrinhos do seu Tião foi criado em maio do ano passado por alunos do ensino médio do Centrão. Auxiliados pela professora Ghisa Porto, vencem obstáculos a cada nova montagem. A maior dificuldade não é decorar o texto, dominar a técnica ou planejar ensaios, mas arrecadar R$ 500,00 para montar a nova peça, com estréia marcada para o dia 3.
Há dois meses, os alunos ensaiam o terceiro espetáculo da trupe: Os Saltimbancos, musical adaptado por Chico Buarque em 1977, a partir do conto Os músicos de Bremm, dos irmãos Grimm. Na peça, animais vivem relações de desigualdade e exploração social. A montagem é conjunta com o grupo Radicais Livres S.A, também de jovens da cidade.
Para que os personagens ganhem vida, haja sacrifício. Eles enfrentam os ensaios depois de um dia de escola e trabalho. Pelo menos duas vezes por semana, o grupo marca as coreografias no pátio do Centrão, das 23h às 2h. Ghisa se encarrega de levar os alunos para casa. "Foi uma condição imposta pelos pais para que os menores participassem", explica. Nos finais de semana, chegam a ensaiar sete horas sem parar. Tudo em busca de um espetáculo de qualidade.
O primeiro trabalho do grupo foi O culpado quem é?, montado para participar do Festival de Teatro na Escola, promovido pela Fundação Athos Bulcao. A peça falava de problemas de abastecimento de água e disseminação de doenças. Foi apresentada em agosto de 2003, no Centro Cultural Banco do Brasil.
O estudante Silvério Gomes, 19 anos, confessa que, quando entrou no grupo, não encarava o teatro com responsabilidade. "Estava aqui pra me divertir. Com o tempo, percebi que tínhamos que levar a sério. Não é por ser um grupo de escola que vamos fazer as coisas de qualquer jeito." Quem antes era indisciplinado, hoje é um exemplo. Em Os Saltimbancos, Silvério representará o jumento, um dos personagens principais.
Quem divide o centro da cena com Silvério é Wilton Dias, 17 anos, que viverá o cachorro,. O pai dele é servente de obras. A mãe, dona-de-casa. Para ajudar no orçamento, Wilton começou a trabalhar este ano como atendente, numa loja de utilidades, onde ganha R$ 200. Por causa do emprego, não conseguia conciliar os horários dos ensaios. Ficou dois meses afastado e entrou em depressão. O grupo resolveu alterar os horários nos finais de semana para que ele voltasse à cena.
"Só então percebi o quanto o teatro me faz bem. Descobri que quero viver isso pelo resto de minha vida." Há um mês, o jovem resolveu apresentar um trabalho sobre Aids de forma diferente. Espalhou pela escola que estava contaminado pelo HIV. Suscitou discussões sobre qual seria o seu futuro. Colegas e professores choraram, se espantaram, sentiram pena. Dias depois, ele revelou que era tudo mentira. "Queria provocar uma discussão sobre o tema, mas acho que fui convincente demais", brinca. O adolescente pretende fazer vestibular para Artes Cênicas no próximo ano, quando termina o ensino médio.

Tema polêmico

Para Carlione Barbosa, 17, encenar foi um exercício par resgatar a auto-estima. Tinha dificuldade de se relacionar, por ser negra e estar acima do peso, e conseguiu superar a timidez. "Só aqui dentro consegui perceber que era gente assim como os outros. Aprendi com o teatro que preciso valorizar minhas características e aproveitá-las ao máximo."
O segundo texto encenado pelo grupo partiu da idéia de uma aluna que causava dor de cabeça nos professores. Depois que entrou no grupo, Maria Aparecida da Silva, 21, deixou o posto de chefe da bagunça para se tornar uma aliada dos professores no controle da turma. "Aprendi a usar meu papel de liderança em algo produtivo." Aparecida é a autora de Dois caminhos a seguir, que trata de um tema polêmico e comum a colegas: a dependência química.
No roteiro, cenas e conversas que fazem parte da rotina de vários jovens de São Sebastião. A curiosidade para experimentar drogas, o sofrimento do vício, a dificuldade de perder alguém que ama. "É triste, mas me inspirei numa realidade muito próxima. Quis alertar sobre os riscos, mobilizar alunos para a causa."

No improviso

A peça prevê gastos de R$ 500 e o grupo arrecadou pouco mais de R$ 150. "O jeito vai ser comprar fiado. M endividar pra não deixar o sonho morrer", diz Ghisa, que trabalha no Centrão há três anos. Na semana passada, ela ousou. Foi a uma malharia e escolheu vários metros de tecido para o figurino. Chamou o gerente, disse que não tinha dinheiro, mostrou o projeto e pediu desconto de 100%. "Ele resolveu doar o material." A diretora do Centrão, Edna Clemente, pediu à Secretaria de Educação que garanta verba no orçamento da escola para manter o teatro. "Percebemos o bem que o projeto traz à comunidade. Não podemos deixar isso ficar no improviso."

Os Saltimbancos

Apresentação única no dia 3 de novembro, às 16h, no Teatro Dulcina de Moraes
Informações: 335-3602

Fonte: Correio Braziliense, Cidades, quinta-feira, 28 de outubro de 2004, p. 33.

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