São duas horas da manhã, por enquanto, mas logo serão três. Neste momento, estou escrevendo diretamente do QG dos Radicais, vulgo "Senzala", nosso centro de operações. Minha mãe acha que eu estou dormindo. Eu acho. Meu pai não está nem aí. Estou ouvindo minha velha playlist de músicas que a Amanda odeia em 80%. Binho está jogando (eu sei pelo barulho de carro acelerando que nunca some nem chega). Bia e Priscila estão dormindo no quarto delas, e, por enquanto, ainda não gritaram para eu baixar o som (porque eu também não deixei o som alto para elas não poderem gritar). E eu estou escrevendo este texto diretamente no editor do Blogger, o que não é do meu hábito, mas estou. O Daniel me forneceu a senha do blog, mas a contragosto, eu acho, porque ele deve ter medo do tipo de coisa que eu posso aprontar com o blog que ele ralou tanto para formatar tão bonitinho. Na verdade eu não peguei a senha para escrever este texto; era para publicar uma matéria que ainda não foi publicada, mas vai. Porém as circunstâncias me compeliram a redigir.Logo o dia vai amanhecer, mas amanhece de luto. Porque o pobre pé de siriguela, que protagonizou muitas das confraternizações, reuniões, conspirações, planos, fofocas, festas, e todo tipo de manifestação dos Radicais Livres, foi impiedosamente destruído na tarde de hoje. O bicho está parecendo uma galinha depenada.
Os algozes, ainda que contrariados, foram Julio César Cavalcante de Santana, 24 anos assumidos, Diego "Suricate", que tem cara de 16, Marcus Vinicius de Farias Silva, que estava com 20 quando eu parei de contar, Valmir "Junto com Você", cujo sobrenome eu não sei e cuja idade eu não quero saber.
A mandante desse crime insano foi a "Temida e Respeitada" Maria Nazide, conhecida na alta sociedade como "Naná", "The Hurricane". Alguns (mais da metade dos Radicais) a chamam de "Mamãe", eu a chamo de "o almoço está pronto?" (sim, eu sou um filho desnaturado).
Tudo começou quando um galho infeliz caiu no meio das plantas de Naná "TH". Para quê? É fato conhecido que Naná "TH" alimenta uma paixão obsessiva e paranóica pelas lindas plantas do seu jardim, cultivadas com esmero e dedicação ao longo de anos e anos, à custa de muitos gritos contra os desavisados e desatenciosos visitantes (e também residentes e vizinhos) que frequentemente imolavam suas plantas, colocando bicicletas por cima, chutando bolas e ainda pedindo para ela pegar, deitando, rolando, cuspind0, jogando cinza de cigarro e, no caso de alguns cujos nomes eu não vou citar, mas que tem o apelido de Vinny Borba, até mesmo mijando.
Após todos esses anos de compreensão e indulgência (nem tanta), o desventurado galho do pé de siriguela inventa de cair bem em cima das idolatradas plantas de minha mãe, Naná "TH". Malgrado seu. E nosso.
No início, a intenção era apenas arrancar alguns galhos inconvenientes, como os que estavam caindo por cima do muro, para o lado do quintal do vizinho. O escolhido para realizar essa tarefa foi o Júlio César, que desde quando começou a namorar com a minha irmã ("Bia 100% Marjorie Estiano"), se tornou capacho oficial da família, para manter os seus direitos conjugais. Se lasque doido! Desde então, ele tem abandonado até mesmo suas altas obrigações como coordenador de projetos, homem de negócios e Jesus Cristo nas horas vagas, para atender aos pedidos de sua querida sogra. E portanto executou a tarefa sem relutância. Além do mais, ele só ia tirar alguns galhos. Normal.Júlio César ficou meia hora berrando pelo nosso vizinho com cara de psicopata, para pedir permissão para jogar o galho no quintal dele e depois irmos lá retirá-lo. Depois de muito ignorar o Júlio, o vizinho resolveu aparecer. Afinal aguentar a voz renitente do Júlio não é tarefa fácil. Júlio, que, apesar de estar se borrando, é um cara destemido, pediu com toda a sua polidez, para o vizinho com cara de psicopata, que, provavelmente, para evitar a tortura sonora da voz do Júlio, acabou concordando. Foi então que Papai, vulgo São Dagomé, mandou eu pegar a segueta, que estava pendurada na parede da Senzala. Peguei e entreguei para o Júlio, e ela então se tornou o novo instrumento diabólico.
O chão já estava coberto de folhas e galhos assassinados, quando apareceu o Eduardo. Este foi direto para a cozinha, e tomou uma xícara de café bastante apreciada por uma pessoa que fuma tanto. O que automaticamente o obrigou a ajudar minha mãe na sua empreitada. Se lasque doido. Lá fora, vários moleques se aproximavam dos galhos arrancados em busca de siriguelas facéis, e eram muitas e muito boas, e todos queriam sugar até a última gota de tudo o que o maravilhoso pé podia oferecer. Eu não sabia que a minha rua tinha tanto menino assim.A essa altura eu já havia esquecido a dor do pé de siriguela e começava a me concentrar na tormenta que estava por vir. Quer dizer, todos aqueles galhos e aquela sujeira espalhada pelo chão teria que sair dali, e, via de regra, essa tarefa seria inevitavelmente executada por mim. Pois há uma tradição de que os filhos do meio sempre tem de carregar os resíduos do pé de siriguela arrancados - acho que está em algum lugar da Bíblia isso. O bom é que minha mãe convocou o Eduardo para ajudar, em virtude do cafezinho que havia tomado, e o "Rangel, Rangel não, Jardel"(era assim que ela o chamara por três vezes seguidas), que teria que trabalhar em virtude da manutenção dos direitos conjugais sobre minha outra irmã, Priscila. Se lasque doido. E própria Priscila foi ajudar. Até o Zequinha ajudou a gente, arrancando as siriguelas que ele achava mais gostosas e guardando em um saquinho, para poder aliviar o peso dos galhos para a gente. Foi uma mão na roda.
Mas nada disso amenizou minha dor de ir carregando, membro a membro, os restos mortais do amado pé de siriguela, a seiva ainda fresca manchando o asfalto, e depositá-los na matinha lá do outro lado, sepulcro de dezenas de outros defuntos anônimos, entre fetos, seres humanos, cachorros, soinhos e outros pés de siriguela. Nem muito menos a dor de carregar aquele peso miserável, jogar aquela porqueira por cima do alambrado, enfrentar os transeuntes mal encarados, essas coisas. É de fazer um chorar.
Lá pelas tantas, papai passou com um monte de papéis embaixo do braço e uma xícara de café na mão (que eu teria que levar para cozinha no outro dia e lavar, porque ia ficar na Senzala, e ainda levar nome, porque minha mãe ia achar que fui eu). Mamãe resmungou alguma coisa sobre ele não ajudar, ao que ele bradou alto e forte: "eu não vou ajudar não! Eu, em nenhum momento, concordei com isso!" O que para mim foi um gesto bastante heróico. Depois ele entrou na Senzala e foi fazer a revista dele, enquanto mãe continuava com seu esquartejamento.De repente um carro passa fazendo uma propaganda e pára em frente de casa. Era o Valmir, vulgo "Junto com Você", mais um desavisado que não tinha tomado café nem era portador de direito conjugal algum, mas mesmo assim fora persuadido a contribuir com os trabalhos assassinos.
Enfim, por volta das seis horas da tarde, eu olhei para o alto e, ao invés de um aglomerado de folhas e galhos, o que eu vi foi um céu cinzento e brilhante, uma garoinha fina e gelada que caía lentamente, de um céu que eu via pela primeira vez, de dentro do quintal, em cinco anos, desde quando minha vó o trouxe do quintal de outra vizinha e o plantar, e fizera uma reza junto com o Júlio para ele dar frutos, e desde quando começara o Sarauradical, e desde quando começaram os Radicais Livres, ou seja, que nasceu quando nós nascemos e cresceu como nós crescemos, mas que agora está reduzida à uma galhada careca e feia.
Nunca vou esquecer do Júlio César olhando para mim, com os olhos marejados de lágrimas de tristeza, dizendo em um otimismo inesperado: "agora a internet vai ficar rápida, hein, sem os galhos na frente"...
Pois no fundo, a moral é esta: a esperança e o otimismo da gente nunca morrem, igual ao pé de siriguela. Embora feio e esquartejado e reduzido a um galho, suas raízes continuam firmes e profundas, no jardim de mãe. Ainda por cima, independente das adversidades, ele vai continuar crescendo, e, no inverno que vem, ele votará a ser a velha árvore frondosa que conhecemos, cheio de siriguelinhas suculentas. Só não recomendo que venham à Senzala nos próximos meses porque a visão é realmente medonha.
Sim, eu estou dramatizando porque estou sem sono, entediado.
Agora são 5 e 35 e eu eu vou dormir, porque daqui a pouco minha mãe vai me acordar para eu carregar todo o resto de tronco e folha que ainda sobrou de ontem.
Fim de transmissão.
REPERCUSSÃO
Confira as postagens sobre o caso no "Cem Fins Lucrativos" (http://cemfinslucrativos.blogspot.com/):
- "Meninos, eu vi!" (7 de janeiro de 2009);
- "Atrocidade em Brasília - Flash em 20 cortes" (idem).
FOTOS
Mais imagens da poda em
http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=8287677212303345017&aid=1231326490