Cultura do Lixo!
Caminhando pela cidade, pude observar que, na maioria das casas de São Sebastião, não tem lixeira nas portas. É fácil encontrar sacos plásticos cheios de lixo furados e derramados pelas vias públicas, causando mau cheiro e, em conjunto com os animais que ficam perambulando soltos, transmissores de várias doenças. Acompanhando essa realidade, veio a ideia de que o cerne da questão é a cultura do "joga fora".
Cultura, para o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, é o ato ou efeito ou modo de cultivar; Cultivo; complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade; civilização; o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores, civilização, progresso.
O caráter afirmativo de cultura provém da Antiguidade através dos pensamentos dos filósofos Aristóteles e Platão. Para Aristóteles, " os homens subordinam sua existência a um fim em seu exterior, o belo, o bem material e o prazer supremo. O eudemonismo, que é a doutrina que fundamenta a felicidade individual ou coletiva como fator principal da conduta moral humana, no nosso cotidiano, isso, para muitos, é ultrapassado. Hoje o descartável , o perecível, tudo que consumimos rapidamente, nos consomem também e isso se caracteriza em uma cultura moderna ‑ o que não me interessa eu jogo fora.
O livro "Cultura e Psicanálise", por Hebert Marcuse, nos mostra as variadas definições sobre cultura e uma delas, em que cita o pensador Webster, segundo a qual cultura é entendida como o complexo específico de crenças religiosas, aquisições, tradições e etc. Marcuse brinca com o conceito e traduz as qualidades para uma linguagem moderna, "aquisições"= destruição e crime, e "tradições"= crueldade e fanatismo. Em outras palavras, cultura para ele é mais do que uma mera ideologia: é um processo de humanização caracterizado pelo um esforço coletivo para conservar a vida humana, pacificar a luta pela existência ou mantê-la em limites controláveis, consolidar uma organização produtiva da sociedade, desenvolver as capacidades intelectuais dos homens, diminuir e sublimar a agressão, a violência e a miséria.
Gilberto de Melllo Kujawisk, no artigo intitulado "A Cultura do Lixo" ( Senado Federal-1999), faz uma analogia do lixo com vários segmentos do comportamento da sociedade; o lixo da política da corrupção, o lixo da poluição, o lixo do crime organizado e não poderia faltar o lixo da cultura. Gilberto descreve como o lixo da cultura tem o aspecto mercantilista nos tempos atuais. "A indústria cultural determina o que é arte e o que não é arte, ao sabor do mercado. Lixo é a degradação da arte em mercadoria e artigo de consumo. A fraude cultural é a pior espécie de lixo, o baixo nível intelectual, e a ignorância embalada no enganoso atrativo da maioria dos best-sellers vendidos como literatura, das obras mais irresponsáveis, vendidos como obras de artes plásticas, das frias enganações lançadas como 'poesia de vanguarda' ".
Conclui o seu artigo citando o filósofo grego Heráclito de Éfeso, através da indagação de que "tudo está perdido, chegamos ao fim do mundo?". A teoria da "conversão dos contrários', onde do caos sai a ordem, das trevas brota a luz, do lodo floresce a flor de lótus. Tudo pode mudar.
Século XXI , com o avanço das novas tecnologias de mídia da informação, estamos caminhando a passos lentos. Hoje, os estudos científicos nos mostram que todos os problemas vigentes do conhecimento, da organização social e da proteção ambiental são solucionáveis. Podemos viver no Planeta sem degradá-lo, mas para solucionar esse problema temos um exemplo prático que se resume numa só frase que já virou título e tema de documentário.
"Reciclando a cultura do lixo" (dezembro 2007) é um vídeo documentário dirigido por dois jornalistas formados pela Uniradial. Conta a história de dois catadores de lixos recicláveis que tomaram uma atitude inusitada para promover a cultura. Um é Severino Manoel de Souza, que montou uma biblioteca comunitária com livros encontrados no lixo, o outro é José Luiz Zagati, também catador de lixo, que alimentou um sonho de infância, exibe filmes gratuitos na laje de sua casa, em Taboão da Serra- SP.
Severino Manoel narra a sua história nesse documentário emocionando o público Mostra a importância da leitura, e que nem tudo que está no lixo é lixo. Encontra livros nos lixos em bom estado e leva para a sua biblioteca para que outras pessoas possam ter acesso.
Já José Luiz é um verdadeiro cinéfilo. Projeta em sua casa, numa sala improvisada, filmes para crianças carentes da comunidade. Todo o equipamento que utiliza, ele achou no lixo, o projetor e os filmes. O documentário tem duração de quarenta minutos, conta com entrevistas de pessoas como o sociólogo Reinaldo Pacheco e o cantor e compositor Tom Zé. Mais informações sobre o filme você pode encontrar no endereço eletrônico: www.radial.br.
Em 2008, na cidade de Nápoles na Itália, registrou-se uma crise do lixo que abalou o país. Com a greve dos catadores de lixo, os lixões ficaram abarrotados, os sacos começaram a se acumular pela cidade inteira, colocando em risco a população que envolveu até a máfia. No mesmo ano os lixeiros da cidade de Vancouver, no Canadá, entraram em greve. A paralisação durou 88 dias, período no qual a população teve que achar uma solução para não entrar em colapso. Os lixeiros protestaram contra a política do "joga fora" e a saída foi a compostagem. Compostagem é a mistura de vários elementos químicos provenientes do lixo para a fabricação de húmus e adubo.
Pois bem, caros leitores, podem e devem, como cidadãos de bem, pensar a questão do lixo em nossa cidade como fonte de prosperidade e não como uma questão que só o poder público pode resolver. Tanto a compostagem quanto a reciclagem são práticas muito importantes para que tenhamos uma qualidade de vida melhor e mais saudável. Nada sai do Planeta em que vivemos, só mudamos as coisas de lugar, mas podemos transformar e "jogar fora" não é a solução. Precisamos realmente reciclar a cultura do lixo em todos os sentidos da nossa vida.
EUQ ES EKSAL! , TRADUZINDO, QUE SE LASKE!
