“Oportunidades e gangues no DF”

As impressões que Brasília me causou, em um primeiro momento, foram todas desfeitas quando cheguei, pela primeira vez, a São Sebastião. As diferenças são tão evidentes que até incomodam. Quem nasce e cresce em uma cidade-satélite não deve se identificar com a capital federal, sob nenhum aspecto. Brasília é espaçosa, organizada, limpa, quase não tem pessoas nas ruas. São Sebastião é árida. Terra seca, chão batido, uma avenida principal asfaltada, ruelas com casinhas cercadas de grades por todos os lados, muros e centenas de pichações. E pessoas, muitas e de todas as idades, caminhando na rua.
Não sei o que os jovens de Brasília fazem, mas não questiono a quantidade de opções. Já sobre os meninos que conheci em São Sebastião não tenho a mesma opinião. Quando indagados sobre o que tinham pra fazer na cidade-satélite marcada pela violência, a resposta era sempre espontânea, crua, direta:
- Nada.
Repeti a pergunta inúmeras vezes, pra quase todo mundo, ainda que não tivesse relação com o assunto da conversa. Perguntei sobre as tardinhas, sobre as noites de sábado, os domingos. Nada, nada, nada. Sem esporte, sem lazer, sem opções de cultura. Era uma dúvida minha, transformada em constatação. É a minha hipótese sobre o porquê dessa coisa de gangue.
Sempre achei que a primeira e mais eficiente alternativa no combate às influências ruins fosse a oferta de oportunidades boas. Reforcei minha lógica depois de conhecer São Sebastião. Andamos por todas as quadras, de norte a sul, nos extremos leste e oeste, e não encontramos praças, nem bancos, nem quadras de esporte. Também não existe cinema, nem teatro. Menos de dez minutos de carro separam São Sebastião de Brasília. Na prática da vida real elas ficam muito mais longe.
*Caroline Kleinübing

As impressões que Brasília me causou, em um primeiro momento, foram todas desfeitas quando cheguei, pela primeira vez, a São Sebastião. As diferenças são tão evidentes que até incomodam. Quem nasce e cresce em uma cidade-satélite não deve se identificar com a capital federal, sob nenhum aspecto. Brasília é espaçosa, organizada, limpa, quase não tem pessoas nas ruas. São Sebastião é árida. Terra seca, chão batido, uma avenida principal asfaltada, ruelas com casinhas cercadas de grades por todos os lados, muros e centenas de pichações. E pessoas, muitas e de todas as idades, caminhando na rua.
Não sei o que os jovens de Brasília fazem, mas não questiono a quantidade de opções. Já sobre os meninos que conheci em São Sebastião não tenho a mesma opinião. Quando indagados sobre o que tinham pra fazer na cidade-satélite marcada pela violência, a resposta era sempre espontânea, crua, direta:
- Nada.
Repeti a pergunta inúmeras vezes, pra quase todo mundo, ainda que não tivesse relação com o assunto da conversa. Perguntei sobre as tardinhas, sobre as noites de sábado, os domingos. Nada, nada, nada. Sem esporte, sem lazer, sem opções de cultura. Era uma dúvida minha, transformada em constatação. É a minha hipótese sobre o porquê dessa coisa de gangue.
Sempre achei que a primeira e mais eficiente alternativa no combate às influências ruins fosse a oferta de oportunidades boas. Reforcei minha lógica depois de conhecer São Sebastião. Andamos por todas as quadras, de norte a sul, nos extremos leste e oeste, e não encontramos praças, nem bancos, nem quadras de esporte. Também não existe cinema, nem teatro. Menos de dez minutos de carro separam São Sebastião de Brasília. Na prática da vida real elas ficam muito mais longe.
*Caroline Kleinübing
Assista aos vídeos da matéria:
Primeiro bloco:
Segundo bloco:
Fonte: Sítio do Profissão Repórter. Disponível em
http://especiais.profissaoreporter.globo.com/programa/2009/07/29/oportunidades-e-gangues-no-df/ . Publicado em 29 de julho de 2009.
RESPOSTA RADICAL
Meu nome é Devana Babu e eu apareci na reportagem de vocês. Eu era um dos acompanhantes daquele garoto loiro que vocês filmaram voltando pra casa através das vias de "chão batido” (?!) de São Sebastião, assim como meu amigo Luís Próton. Ontem à noite eu pude ver, tão claro como a lua de minha cidade recortando as colinas, o efeito daninho que a descontextualização de uma frase pode causar ao sentido dela. Estou francamente decepcionado com vocês e particularmente com a linda senhorita gaúcha Caroline Kleinübing, que me ludibriou, a mim e a meus boêmios amigos, com sua conversa mansa e despretensiosa, com sua polidez e dissimulada compreensão. Digo isso porque durante cerca de uma hora estivemos caminhando lado a lado com ela e os dois outros repórteres, assim como fazemos apenas com nossos companheiros, e desvendando um verdadeiro universo ante os olhos dos incrédulos ouvintes. Falamos de tudo, sobre como funciona a violência na nossa cidade, sobre como ela nos afeta e como não nos afeta, sobre o mundo de arte que só em São Sebastião existe, sobre todas as pessoas "bacanas" que conhecemos, enfim, sobre tudo, inclusive sobre a tal da violência. Fatalmente, de todo o nosso parlatório, a única parte que estes jovens "padawans" foram capazes de filtrar foi um infeliz trecho em que meu imprudente amigo disse: "eu mesmo sei que em algumas quadras eu não posso andar"... O único trecho de um verdadeiro dossiê sobre a cidade... O trecho que dizia o que vocês queriam mostrar, e não a realidade... Uma frase sem contexto... Durante todo o trajeto de volta, estivemos conversando com a jovem Caroline. Falamos sobre como a mídia massacrava nossa cidade com notícias tendenciosas e mal apuradas sobre a violência, e que não gostaríamos que esse programa fosse igual, e por isso queríamos que mostrassem o sarau que fazíamos, e as dezenas de atividades desenvolvidas no Centro Educacional (CED) São Francisco, e muito mais... Queríamos que fosse enfatizada a parte positiva da cidade, o que talvez fosse uma espécie de indenização a todo o mal causado pelo papel anterior da imprensa... E isso foi um desejo de todos os entrevistados... A diretora Leisa Sasso, os alunos do colégio, e todos os outros... Agora vai a professora Leisa falar sobre o infeliz episódio em que encontraram um infeliz aluno armado nas dependências do colégio... Duvido que não tivesse saído até nas vinhetas... O Próprio Gleyton, que vocês fizeram parecer um garoto de gangue, faz parte do sapateado, é poeta... E disse tudo isso para a senhorita Carolina... Tudo que ele queria era que fossem publicadas coisas sobre o sapateado, o filosofança, do qual ele faz parte... E pediu encarecidamente que não publicassem nada dele falando sobre a violência.... Mas foi o mesmo que pedir o contrário. E eu que achava que só as mães tinham essa capacidade de só ouvir parte ruim do que a gente fala... "Mãe, eu tirei dez em todas as provas, mas tirei zero em educação física..." "O que? você tirou zero?". Como eu havia dito para a Carolina, sonho em entrar na Faculdade de Comunicação da UnB... Gosto e pratico Jornalismo... Até dei o cartão do meu blog para ela (aposto minha vida como ela nem sequer entrou...)... Um carola... Mas depois disso tudo, minha fé no Jornalismo foi abalada... Não sei se quero fazer parte dessa corja de sensacionalistas sem criatividade... Sinceramente, violência urbana é um tema esgotado e démodé... Além de ser estigmatizante e destrutivo para a auto-estima de uma sociedade... E pouco eficiente... Com essa reportagem, vocês conseguiram levantar uma cidade contra vocês e matar um jornalista antes mesmo de nascer... Parabéns...
O comentário foi postado no site do "Profissão Repórter". Eles moderam os comentários e não quiseram postar o desabafo acima transcrito. Por isso, ei-lo aí.
** Confira as demais respostas à matéria do programa no sítio do programa: http://especiais.profissaoreporter.globo.com/programa/2009/07/29/oportunidades-e-gangues-no-df/
This entry was posted
on segunda-feira, 3 de agosto de 2009
at 05:50
and is filed under
Imprensa
. You can follow any responses to this entry through the
comments feed
.