"Sua bruxa!" Nossa! Como essa frase assusta! Na maioria das vezes, é considerada até um insulto à mulher. Claro, ninguém normalmente ofende um homem chamando-o de "bruxo". Por que será? Antes de Harry Potter, ninguém havia pensado muito sobre essa hipótese e, até hoje, a bruxaria é vista como coisa ruim ou até mesmo demoníaca. Além do mais, é algo que remete diretamente às mulheres, como se elas fossem únicas realizadoras de tais práticas. Talvez uma voltinha ao passado nos mostre como chegamos até aqui... A bruxaria, de 1450 a 1750, com a influência da Igreja, era vista como uma calamidade gravíssima, perturbadora da ordem social e intimamente ligada à natureza feminina. Acreditava-se que as bruxas realizavam rituais na floresta, invadiam casas para sugar a vitalidade das crianças, tornando-se, assim, através de mitos populares, uma ameaça à comunidade em que viviam. Então, condenavam-se tais mulheres à fogueira, na maioria das vezes. Estas eram torturadas até confessar alguma coisa, que cometeram ou não, e assim levavam a culpa por crises políticas e sociais. Quem se lembra do filme A Bruxa de Blair? Sucesso em cinemas de todo o mundo por suas cenas de suspense e terror. A coitada da bruxa até hoje é vista como um espírito mau que atrai inocentes à morte certa, bem sabemos. Em Genebra, por exemplo, entre os séculos XVI e XVII, centenas de mulheres foram condenadas à morte porque alguns desentendidos chegavam à conclusão de que elas tinham alguma coisa a ver com o surto de peste que se assolava na região. A verdade é que a mulher sempre foi perseguida por algum motivo. Considerada a principal tentação mundana (esquecendo-se, então, que elas também faziam parte do Mundo)! Que culpa temos nós de sermos maravilhosas? Mas, como se não bastasse utilizarem-se da bruxaria para culpar o sexo feminino, a mulher, no andamento da história, sempre subordinada ao "sexo dominante". No Brasil Colonial, outro exemplo, a mulher brasileira não tinha uma identidade própria. Basta olhar nos livros, fomos condenadas aos costumes europeus logo que os Portugueses chegaram por aqui: antes, não tínhamos nenhuma obrigação de nos casarmos virgens, até então, pois desde sempre a mulher teve a dádiva da fertilidade (como provar que se pode gerar uma criança antes de "testar" a tal fertilidade!?). Assim, carregávamos um enorme fardo nas costas. Sendo ou não virgens, ou fazíamos a humanidade se multiplicar, ou, anos mais tarde, teríamos o papel fundamental de demonstrar pureza total até o dia tão sonhado do matrimônio. De qualquer forma, havia subordinação. Como se não bastasse, nesta época a mulher foi pressionada a adquirir uma vida voltada para o lar. Assim, tomava conhecimentos sobre doenças, ervas curativas, sobre parto, o aborto, etc. Aí novamente, a mulher qualificava-se, sem querer, como feiticeira, pois, muitas vezes, seus conhecimentos contrapunham à medicina tradicional e ao que os homens acreditavam. Atualmente, graças a muita luta, o gênero feminino tem conquistado espaço fora de casa, no mercado de trabalho e nos estudos. Não perdemos nossa experiência em assuntos caseiros e, mesmo acreditando em simpatias e crendices, não nos condenam mais à fogueira. Ainda bem! E se nos chamarem de "bruxas". Será que ainda ofende?

Sueli Martins

"desaltoalto", julho de 2007, p. 1.

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