Foi o que ela me disse assim que terminou a aula de Filosofia. A gente estuda, estuda, faz um vestibular concorridíssimo, passamos finalmente após sete anos de tentativas frustradas e no primeiro dia de aula a professora de Filosofia diz que não existimos e tudo que aparentemente existe não passa de uma mera adaptação para vivermos nossas vidas mais confortavelmente. Pois bem, foi justamente assim que a conheci: eu a olhei, vindo em sua despercebida beleza morena, graciosa e desinteressada. Me surpreendi quando meus olhos (que não existem) adaptaram uma imagem fantástica a meu bel-prazer.
Tinha a sensação obscura de conhecê-la, de alguma forma material eu a conhecia sem reservas.
Sentou-se perto. Na cadeira da frente. Essa proximidade física (que na realidade é puramente eletromagnética) quase me deixou sem fôlego.
A teoria básica é que a parte "sólida" do átomo é o núcleo, infinitissimamente pequena e o resto (os elétrons) é pura energia. E isso eu percebi naquele momento quando toda minha energia (porque sou toda energia com 0,000001% de solidez insana) converteu-se, atraindo a atenção ilógica daquela moça à minha frente. Quando tivemos o primeiro contato mútuo, milhares de elétrons criaram uma corrente de sentidos opostos se chocando e se atraindo numa humanidade ameaçadora.
Anos depois, ela me diria que sempre tivera uma impressão de sempre ter me conhecido; de que eu era muito familiar. Ela dissera: "seria intenso caso existíssemos" e sorriu, mas eu sabia o quão intenso havia sido mesmo se não existíssemos. A humanidade desafiadora de não existir. Então o humano é um não-ser, o ser humano é uma impressão que temos de nós mesmos.
Enquanto a professora continuava, eu sentia a energia destruidora da moça da cadeira da frente. Seus cabelos, sua pele homogênea, seu arranjo atômico me fez perceber o quanto era bom não existir, caso não existir seja tudo isso. Caso seja tudo isso, jamais quererei existir.
Ela disse: "seria intenso caso existíssemos", então sorriu e me disse seu nome. Deste então não queria sair de perto dela, mesmo que ela não existisse.
Eu estava viciado em não existir.
Eu não disse meu nome. A aula havia acabado. Eu esperava ansioso pela próxima aula, mas ela jamais saberia que fora intenso justamente pelo fato de não existirmos.

S. Madrigal

"De Salto Alto", junho de 2007, p. 4.

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