Editorial - A garota do vestido azul  

Postado por d.b em

“Um povo, cujos líderes não possuem espírito público,
não passa de um ajuntamento de indivíduos,
impotentes para produzir qualquer soma cívica.”
Assis Chateaubriand
Num bairro pobre de uma cidade como a nossa São Sebastião, morava uma garotinha muito bonita. Ela freqüentava a escola pública local. Sua mãe não tinha muito cuidado e a criança quase sempre ia suja para a aula. Suas roupas eram muito velhas e maltratadas.
Um dos professores ficou sensibilizado com a situação da menina, separou algum dinheiro do seu salário e, embora com dificuldade, resolveu comprar-lhe um vestido novo. A garota ficou linda no vestido azul.
Quando a mãe viu a filha naquele lindo vestido, sentiu que era lamentável que a menina, vestindo aquele traje novo, fosse tão suja para a escola. Por isso passou a lhe dar banhos todos os dias, pentear seus cabelos e cortar suas unhas.
No fim de semana, o pai, observando a menina que fazia o dever, comentou com a mulher: Você não acha uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada more num lugar como este, caindo aos pedaços? E, logo, a casa se destacava na pequena vila, pela beleza das flores, que enchiam o jardim e o cuidado em todos os detalhes.
Os vizinhos envergonhados por morarem em barracos tão feios, resolveram também arrumar suas casas, plantar flores, usar a criatividade para pintar as paredes e encheram a rua de brilho e alegria.
Em pouco tempo todo o bairro estava transformando.
Mas as ruas continuavam esburacadas e sem iluminação ou esgoto. Um homem que acompanhava os esforços e a luta daquela gente pensou que eles mereciam o auxílio das autoridades. Era um direito daquela comunidade. Organizou uma comissão e foram ao prefeito, sendo encaminhados ao orçamento participativo. E logo estudaram os melhoramentos que seriam necessários ao bairro. A rua de terra foi calçada e as casas ganharam passeio e meio-fio. Os esgotos a céu aberto foram conduzidos para encanamentos próprios. Houve uma festa no dia da inauguração da iluminação pública. A escola ganhou uma quadra de esportes.

***

O trabalho iniciado pelos Radicais Livres Sociedade Anônima em São Sebastião se assemelha ao caso citado acima principalmente porque o que fazemos é pouco. Como se tivéssemos apenas comprado o vestido. Compramos o vestido, é certo. Sentimos que algumas benéficas conseqüências advieram do mero gesto de trabalhar a palavra, principalmente a palavra poética, entre nossos irmãos de infortúnio. Também parece ser verdade que não há necessidade de nos entregarmos cem por cento ao trabalho comunitário. Há outras coisas a fazer. Mas certos gestos diários são necessários. Certa postura é indispensável: Foco. Determinação. Uma qualquer Disciplina revolucionária. Vontade. Generosidade. Espírito público. E tudo isto não me parecem qualidades inatas dos artistas dado o individualismo natural que permeia o seu espírito narcisista, o que também parece ser o motor principal da criação sendo este um ato eminentemente solitário. Mas é preciso mudar certos paradigmas. Um deles é o de que bons artistas tendem a morrer inéditos, devem ser autodidatas e viverão anônimos. Outro é que são egoístas. Outro é que são iluminados ou, pelo menos mais iluminados que o resto dos natives. Extremamente excêntricos. Mais bonitos. Mais gostosos. Ultra plus extra. Mais um: são todos "estrelinhas" ... Supõe-se, então, que seja necessário adotar certas posturas para o bom andamento do que chamamos carinhosamente de nosso trabalho coletivo ... ou não!
"Radical News", novembro de 2006, editorial.

This entry was posted on segunda-feira, 2 de junho de 2008 at 13:01 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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