Escrever: proibido para menores  

Postado por d.b em

O pequeno grande escritor Devana Babu, 15 anos, perde espaço para burocracia

Mariana Sacramento

Paulo Sérgio Sena Santos Júnior, 15 anos, conhecido como Devana Babu, é estudante do 2° ano da única escola pública de ensino médio da cidade de São Sebastião, periferia do Distrito Federal. Sua história poderia ser igual à de vários meninos da sua idade envolvidos com drogas, crimes, tráfico. Mas Devana está construindo uma história diferente. Seu vício é a leitura e suas armas são as palavras. Desde os 4 anos, por influência do pai, músico e poeta, e do tio jornalista, profissão que deseja seguir, Devana descobriu o mundo dos livros. Nessa sua trajetória literária estão incluídos o livro “O Esdrúxulo”, o jornal do colégio “Gazeta do Oprimido”, artigos no jornal comunitário “Radical News” e artigos no Caderno de Brasília do jornal Hoje em Dia.

Leitura o grande vício de Devana Babu


O convite para escrever no Caderno de Brasília foi feito pelo editor regional, Otto Sarkis, que soube da história de Devana por meio de matérias feitas por outros veículos de comunicação e pelo próprio Caderno de Brasília. Uma dessas matérias, que mostrava o perfil do menino, trazia um texto do próprio Devana, e chamou a atenção do editor. “Era um trecho muito interessante, que mostrava, além da habilidade com a língua, uma visão crítica ideológica que há muito tempo eu não vejo na juventude”, conta. Saber um pouco da vida e do texto de Devana Babu foi o suficiente para abrir espaço para o pequeno poeta no jornal.

O editor regional do Caderno de Brasília, Otto Sarkis, desistiu devido a tanta dificuldade


O acordo informal foi feito em 2006. Devana escrevia artigos semanalmente e mandava para o jornal, que pagava por eles. “Ele recebia aproximadamente R$ 100 por artigo”, diz o pai, Paulo Dagomé. Não havia restrição de tema. Os textos que foram publicados, como todos os que escreve, eram sobre o que achava da comunidade e da sociedade, dando ênfase à diferença social. “Escrevo sobre o que penso”, diz o jovem.
Mas a colaboração de Devana durou poucos meses. O Ministério Público advertiu o jornal pelas publicações dos textos escritos por Devana, na época com 14 anos. O Caderno de Brasília não poderia mais publicar os artigos por ser exploração de trabalho infantil. Até 1998, a idade mínima para o ingresso no mercado de trabalho era de 14 anos, mas ela foi alterada para 16 anos. Crianças com 14 anos podem, apenas, ingressar em programas de aprendizes.
“Em nenhum momento ele foi convidado para trabalhar com horário fixo no jornal. A gente o convidou para expressar as opiniões em artigos eventuais”, afirma o editor do Caderno, Marcelo De Brot. O espaço ajudaria Devana a ser incluído na sociedade, acredita Marcelo. “A gente não pôde fazer isso. Foi nossa grande frustração”.
Otto Sarkis queria remunerar Devana como cronista e formalizar a colaboração dele no jornal. Procurou advogados, contratou uma consultora para que resolvesse o problema. Segundo Sarkis, o que mais o desanimou foi a frase da Procuradora Regional do Trabalho da 10ª Região, Valesca de Morais do Monte, coordenadora do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. “Mais de 30 entidades em defesa da criança vão cair de pau em cima de vocês”, disse ela, segundo Sarkis. “O que percebi é que eu teria muita dificuldade”, lamenta o editor. Ele acreditava que o processo seria natural e que alguém do Ministério Público acharia um caminho para resolver o problema, já que ele estava fomentando uma vocação literária. “Mas eles acham mais fácil dizer não para tudo do que pensar sobre um determinado assunto.” Diante de tanta burocracia, Otto recuou.
“Eu não achei nenhuma justificativa plausível, talvez seja pura má vontade. Eles não tiveram nenhuma preocupação em analisar o caso, de saber qual era minha vontade, o que eu pensava”, diz Devana, que julga a atitude do Ministério Público arbitrária. “Tem a justificativa de que eles querem defender os jovens da exploração. Mas eu escrevo porque eu quero”. Quando via os artigos publicados Devana se sentia muito orgulhoso. ”Mas queria mais”, desabafa.
Paulo Dagomé não entende o que diferencia os jovens artistas da televisão do jovem artista dos textos. “Como tem adolescente fazendo televisão, comercial de TV e tudo mais, por que fazendo uma atividade intelectual há empecilho?”, indaga. Devana concorda com o pai. “A Rede Globo fala assim: eu quero esse menino aqui para apresentar a TV Globinho, é uma coisa instantânea, não é tão burocrático.”
Na opinião do presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, Romário Schettino, não há diferença entre uma criança trabalhar na novela ou escrever para um jornal. “O problema está no conteúdo das falas e da escrita.”
Trecho do texto de Devana Babu, que despertou o interesse de Otto Sarkis, editor regional do Caderno de Brasília:
“A escola é, na verdade, e devia ser encarada dessa forma, uma metáfora da vida em sociedade, sendo esta uma das partes mais relevantes e mais perpétuas de uma instituição de ensino. Vejam vocês, e verifiquem a veracidade do fato: Em qualquer sala de aula do circuito normal de ensino de qualquer lugar da Via Láctea, sempre tem aquele (ou, mais precisamente, não querendo parecer machista, aquela) que toma parte da limpeza da sala, os que se manifestam em nome da turma cobrando atitude dos representantes, os que representam, os que dominam e os que são dominados. Uma minoria que recebe muito e uma maioria que recebe pouco (no caso o contra-cheque seria o boletim e a nota é o soldo em questão) e por aí vai, uns cuidando e outros usufruindo do bem estar da turma em relações de amor, ódio ou inércia, ou seja, mais ou menos como uma miniatura da sociedade”.

Fonte: "Na Prática - Jornal laboratório do IESB". Publicado em 16 de maio de 2007. Disponível em http://www.iesb.br/grad/jornalismo/na_pratica/noticias_detalhes.asp?id_artigo=8501

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