Ou: Desabafo desesperado em Monte Santo
Tenho uma dúvida que me corrói a alma de ser social e biológico oprimido. Tomo a liberdade de pedir uma ajuda ao sábio conselheiro Pai Daguma, Grande Pai Espiritual dos Radicais Livres, ele é filho de Oxum com Iansã.
O escritor tcheco Milan Kundera certa vez afirmou que mulheres morenas pintam seus cabelos de louro por maldade. Isto porque, segundo o escritor, a espécie humana tem a característica do gen mais forte no mais moreno, como se a melanina expressasse a força de espírito e o poder tanto de dominação quanto de dissimulação de um gênero. Então, a mulher morena ("furai os olhos da mulher morena, murchai os peitos da mulher morena...", diria o poeta) se disfarça da frágil da espécie, pintando os cabelos de amarelo-qualquer e quando o macho se dá por si está envolto pelo fluido da feminilidade, pelos mesmos braços lassos daquela mesma mulher morena que atormentou o poetinha. Aqui começa a minha tragédia.
Era apenas uma entrevista, juro, ao telefone. Tinha que ser rápida, o trabalho se arrastava, o tempo corria. Mas a voz doce de soprano sem-ter-sido fez com que a trapezista no meu cérebro desatasse a fazer malabarismos mis e acrobacias incríveis de arrancar ohs e ehs e ahs da platéia estupefata e maravilhada. O didatismo ao falar era de professora, mas ela era entrevistada como gestora de finanças. Deixei a imaginação me levar enquanto ouvia aquela voz que fazia um riso nascer de dentro do meu esôfago.
A conversa foi agradável e até bastante estendida por ela mesma, que se sentiu à vontade e desandou a falar de si-sua gestão. Imaginei muitas coisas; que ela é religiosa, possivelmente protestante (o que uma análise posterior enquanto voltava de ônibus pra casa mostrou se uma conclusão pouco sustentável diante de argumentos ou associações outras) - mas cristã, sem dúvida, o que é ótimo porque quando elas são independentes e inteligentes costumam ser safadas junto. A menos que estejam freqüentando com assiduidade a agremiação cristã. Se for este o caso, pode querer dizer que ela está passando por um período de purificação - só esperar e conferir.
Imaginei também um certo desprendimento no trato social. Sua risada foi incrível, assim, tendendo ao grave, porém com a mesma graça. Essa desinibição poderia ser um indicativo de um belo corpo. Sim, porque uma vez cristã, logo muito preocupada com a aparência. Sem problemas com aparência quer dizer menos timidez, mais segurança e auto-estima. Simples. Arrisquei até a possibilidade de palpitar que ela seria bem mais alta que eu.
Adivinhar a idade foi mais fácil ainda. Joguinho de intuição. Peguei a média da equipe e por ser ela jovial demais, joguei por baixo e dei 42...
"Estamos deixando registros de tudo, porque temos de ter esta preocupação, não apenas do ponto de vista dos subsídios a serem deixados às próximas gestões, mas também é muito importante olhar o aspecto da utilidade cultural desses documentos no futuro...", ela dizia. Essa preocupação humanista na fala da técnica contábil fez com que eu começasse a divagar novamente. Juntando aquelas características da sedução na fala a este aspecto, perguntei se ela era professora. "Sim!", disse ela feliz com a pergunta. "Sou licenciada em história", aproveitei a oportunidade para falar um pouco, "eu também sou historiador", e desembolamos um papo. Quando ela disse ter se formado em 92, pensei em reformular minha dica para a idade, mas decidi mantê-la
Ao final da conversa, eu disse "foi um prazer conhecê-la" ao que ela respondeu, "Não! Precisamos nos conhecer pessoalmente". E marcamos um encontro. Após desligar o telefone, enquanto refletia sobre a conversa, identifiquei no tremor sutil daquela voz alguma fragilidade oculta pela personalidade. Decidi arriscar o palpite de que· ela fosse loura, ou, no mínimo, de pele clara e cabelos castanho-claros. Minha ruína.
A visão daquela criatura. Ora, vou .ser breve. Alta de levar-se segundos claros para olhar dos pés à cabeça, sendo que já na altura das coxas, e que coxas, tem-se o ímpeto e o desespero de procurar alguém a volta para pedir: "me ajuda a olhar?" Melhor dizendo, é aquilo a que costuma-se chamar mulher gostosa, assim de falar com fala em negrito, em palavras todatonicas, um acento agudo em cada sílaba. Meu deus, pensei, ou me fura os olhos ou murcha ela!
Dali até os cabelos daquela morena da boca carnuda e pinta grossa ao lado entre a boca e o nariz (sim, como sou estúpido, até isso a nega tinha) foram-se um comboio de coisas que passou veloz pela minha cabeça fazendo-a girar e cair a trapezista, e a platéia dizer ohhh! Foi aí que me lembrei do Kundera, que tanto li.
Tenho, então, de fazer perguntas ao sábio conselheiro deste jornal: por que treme o homem nas bases diante de qualquer treva? Por que sabemos racionalmente sobre isto, mas o corpo não quer saber? Carcaça, por que tremeis? Tremeríeis mais se soubesses aonde te levo. Por que é inútil todo o peso da teoria diante de enigmas como o feminino? Soube que o único homem que descobriu o segredo das mulheres, o ronilso da gameleira, morreu de rir sem conseguir contar pra ninguém. Por isso apelo a Vossa Sapiência para, no mínimo, dar a este pobre mortal, cheio de fraquezas na alma, subsídios para construir algum conceito que não seja conclusão derivada de um único raciocínio ou experiência que conclui: por que as bocetas são tão gostosas? Por que não podemos separá-las das suas proprietárias? Por que as proprietárias complicam tudo? O que será de nós desse jeito? Por que a lata de biscoitos é sólida mas o seu peso é líquido? Que diabo tinha moisés na cabeça quando andou 40 anos com seu povo elo deserto e resolveu parar no único lugar que não tinha petróleo? O que significa zarzuela?

“Estácio Cansado”, em desespero, para o “Radical News”.

This entry was posted on quarta-feira, 4 de junho de 2008 at 04:45 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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