Às Mulheres dos Radicais Livres
O universo está em desarranjo. A renúncia coletiva de Naná, Karla, Sueli, Bia e Priscilla instaura o caos cósmico. A guerra dos sexos atinge seu ápice. “É a gota d’água. Basta!” Condoídas, Ísis, Afrodite, Minerva e Atenas traçam o plano derradeiro. Convocam uma Assembléia Intergaláctica pela Unidade Feminina em Vênus. Musas e heroínas de todos os tempos e lugares acorrem resolutamente ao encontro, congestionando a Via Láctea. Em solidariedade, Eva deixa Adão; Maria Madalena abandona Jesus; Julieta relega Romeu; Barbie rompe com Ken; Dona Florinda dispensa o Professor Girafales; Fiona separa-se de Shrek. Até Nossa Senhora, aquela que intercedeu por João Grilo em “O Auto da Compadecida”, se exaspera. Chegou a hora fatal do Grande Acerto de Contas. Gaia, acatando o relatório do Panteão feminino, decreta a greve geral, antecipando-se o Apocalipse.
Aos homens não restam dúvidas: é preciso entregar ao altar do sacrifício supremo o bode expiatório, aquele que provocou a eclosão do Inferno de Dante na Terra. Os ecos de choros e ranger de dentes se fazem sentir com uma estridência cada vez maior. Após uma série de investigações, baseada nas mais “modernas” técnicas de interrogatório da prática forense, nosso fausto Capitão Nascimento indica o culpado: “Mr. President”. Envida-se uma caçada implacável ao desditoso. Para percorrer o Globo, a “Sala de Justiça” conjuga esforços com o “Instituto Xavier para Jovens Superdotados”, mobilizando todos os Super-Amigos e X-Men. Nenhum recanto é esquecido: a ilha do “Náufrago”, o poço de “O Chamado”, o barril do Chaves. Sem sucesso, exaustos, praticamente conformados com a morte iminente no “Caldeirão do Capeta” (aquele mesmo descrito na música “Dez Reais”, de Paulinho Dagomé), decidem se exilar, à espera do Juízo Final. Sem titubear, vão afogar suas mágoas em uma das biroscas da “Ratolândia”, vulga São Sebastião. Ao chegar no “Templo de Baco”, avistam, na igreja evangélica ao lado, um pobre coitado, um infeliz acometido por tantas chagas quanto São Francisco. Desfigurada, a criatura desperta uma curiosidade mórbida. Em vão, após inúmeras especulações, ninguém consegue ainda identificar o indivíduo. Nenhum traço ou resquício de humanidade que favoreça o reconhecimento. A certa altura do culto, no entanto, a revelação: prostrado, após o descarrego, no momento que suplicava, conscrito, o perdão divino pelas calúnias, injúrias e difamações contra suas imaculadas vítimas, o facínora balbucia, cuspindo sangue e vísceras: “Meninas dos Radicais, perdoai-nos! Eles não sabem o que fazem. Renunciem à renúncia! Voltem!”, entre outros apelos desesperados. Incrédulos, os demais machos encerram as buscas, levando o burguês fanfarrão ao Tribunal da Santa Inquisição Feminina – instituído para punir os varões que se desviam da adoração à divindade mulheril.
As sentenças variam das mais simples (“Declamarás, até o fim de sua mísera existência como homem, poemas, odes e cantos líricos em exaltação às qualidades, predicados e virtudes das mulheres”, por exemplo) até às mais hercúleas (“Gravarás todos os episódios da semana da novela das 8 e os reprisarás, para deleite e em companhia de sua ‘dona’, aos domingos à tarde, dia de jogo do Flamengo”, e.g.). Resignados e dispostos a fazer muito mais para convencê-las de sua sincera retratação, os homens aceitam de muito bom grado todas as penas impostas.
Uma nova alvorada de paz e amor se vislumbra...
THE END
Mr. President Kindness (Ex-Evil)
O universo está em desarranjo. A renúncia coletiva de Naná, Karla, Sueli, Bia e Priscilla instaura o caos cósmico. A guerra dos sexos atinge seu ápice. “É a gota d’água. Basta!” Condoídas, Ísis, Afrodite, Minerva e Atenas traçam o plano derradeiro. Convocam uma Assembléia Intergaláctica pela Unidade Feminina em Vênus. Musas e heroínas de todos os tempos e lugares acorrem resolutamente ao encontro, congestionando a Via Láctea. Em solidariedade, Eva deixa Adão; Maria Madalena abandona Jesus; Julieta relega Romeu; Barbie rompe com Ken; Dona Florinda dispensa o Professor Girafales; Fiona separa-se de Shrek. Até Nossa Senhora, aquela que intercedeu por João Grilo em “O Auto da Compadecida”, se exaspera. Chegou a hora fatal do Grande Acerto de Contas. Gaia, acatando o relatório do Panteão feminino, decreta a greve geral, antecipando-se o Apocalipse.
Aos homens não restam dúvidas: é preciso entregar ao altar do sacrifício supremo o bode expiatório, aquele que provocou a eclosão do Inferno de Dante na Terra. Os ecos de choros e ranger de dentes se fazem sentir com uma estridência cada vez maior. Após uma série de investigações, baseada nas mais “modernas” técnicas de interrogatório da prática forense, nosso fausto Capitão Nascimento indica o culpado: “Mr. President”. Envida-se uma caçada implacável ao desditoso. Para percorrer o Globo, a “Sala de Justiça” conjuga esforços com o “Instituto Xavier para Jovens Superdotados”, mobilizando todos os Super-Amigos e X-Men. Nenhum recanto é esquecido: a ilha do “Náufrago”, o poço de “O Chamado”, o barril do Chaves. Sem sucesso, exaustos, praticamente conformados com a morte iminente no “Caldeirão do Capeta” (aquele mesmo descrito na música “Dez Reais”, de Paulinho Dagomé), decidem se exilar, à espera do Juízo Final. Sem titubear, vão afogar suas mágoas em uma das biroscas da “Ratolândia”, vulga São Sebastião. Ao chegar no “Templo de Baco”, avistam, na igreja evangélica ao lado, um pobre coitado, um infeliz acometido por tantas chagas quanto São Francisco. Desfigurada, a criatura desperta uma curiosidade mórbida. Em vão, após inúmeras especulações, ninguém consegue ainda identificar o indivíduo. Nenhum traço ou resquício de humanidade que favoreça o reconhecimento. A certa altura do culto, no entanto, a revelação: prostrado, após o descarrego, no momento que suplicava, conscrito, o perdão divino pelas calúnias, injúrias e difamações contra suas imaculadas vítimas, o facínora balbucia, cuspindo sangue e vísceras: “Meninas dos Radicais, perdoai-nos! Eles não sabem o que fazem. Renunciem à renúncia! Voltem!”, entre outros apelos desesperados. Incrédulos, os demais machos encerram as buscas, levando o burguês fanfarrão ao Tribunal da Santa Inquisição Feminina – instituído para punir os varões que se desviam da adoração à divindade mulheril.
As sentenças variam das mais simples (“Declamarás, até o fim de sua mísera existência como homem, poemas, odes e cantos líricos em exaltação às qualidades, predicados e virtudes das mulheres”, por exemplo) até às mais hercúleas (“Gravarás todos os episódios da semana da novela das 8 e os reprisarás, para deleite e em companhia de sua ‘dona’, aos domingos à tarde, dia de jogo do Flamengo”, e.g.). Resignados e dispostos a fazer muito mais para convencê-las de sua sincera retratação, os homens aceitam de muito bom grado todas as penas impostas.
Uma nova alvorada de paz e amor se vislumbra...
THE END
Mr. President Kindness (Ex-Evil)
Daniel Silva
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on terça-feira, 3 de junho de 2008
at 13:58
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