Sarau "deferente"  

Postado por d.b em

Navegando na internet
Encontrei um cidadão
Por nome David Ferreira
Que me deu informação
Foi ele que me falou
Pelo papo que rolou
Do sarau independente
Eu fiquei ressabiado...
Esse cabra do outro lado
Quer me fazer inocente!

O sarau que eu conheço
Lá pras banda do sertão
É um adjunto de gente
Com cachaça e violão
Arrasta-pé forrozada
Aonde a rapaziada
Se diverte a noite inteira
Ao som do fole e pandeiro
Assoprando o candeeiro
Pra animar a bagaceira!

É o "esfrega" " rela-bucho"
Lá na casa do Aquino
Convida o cumpade Zé
Vai homê muié e menino
À noite a lua formosa
Clareia as face mimosa
Das caboca suadeira
Às vezes de madrugada
É uma briga danada
Com murro faca e pexera!

No outro dia a noticia Do sarau de Aquino
Bateram no Billy Gancho
Esfaquearam o Alvino
O vaqueiro do Mané
Levou um tiro no pé
Mas passa bem no hospital
Tudo isso aconteceu
Depois que o velho Lameu
Apareceu no sarau.

Seu Lameu bebeu demais
E um cabra David de tal
Bateu a mão na pexêra
Ninguém ficou no sarau...
Só eles e o sanfoneiro,
O zabumbeiro e o vaqueiro
E a filha de seu Aquino.
Lá da casa de farinha
Gritava dona Zezinha:
Vaiei-me santo divino!

Quando se fala em sarau
Pras banda do meu sertão
Dá um arrocho nas tripas
É coisa de assombração!
É briga certa e cacete,
Muita encrenca e porrete
Muita mulher discussão
Sem policia e delegado
Todo mundo apavorado
No meio da confusão!

Quando se diz tem sarau
Já sabe que é arrasta-pé
Na casa do Virgulino
Na casa do Canindé
É rolo é briga é fuzarca
Peixera ponta de faca
São coisas do meu torrão
Muita mulher suadeira
Caboquinha de primeira
No sarau lá do sertão!

Agora lá em Brasília
Tem um sarau diferente
Um recital de poemas
Com povo culto e decente
Em uma academia
São declamadas poesias
Com música dança teatro
Não tem briga nem zuêra
Nem se compara às bestera
Das coisas doida do mato

É um grupo independente
Na capital federal
É uma festa em família
Com riqueza em recital
Tirando do anonimato
Versos de um vate do mato
Abrindo oportunidades
Pra um poeta da roça
Que só vê sarau na choça
E nunca vê na cidade

O mundo civilizado
Inverte guerra em amor
Agonia em esperança
Indiferença em pudor
Imagine que o sarau
Mudou lá pra capital
Com outra apresentação
Tirou o mato dos lombos
Botou fim nesses assombros
Acabou a confusão

Até hoje eu não conheço
O sarau civilizado
A vontade é muito grande
De ir lá do outro lado
Dar uma volta em Brasília
Gozar dessa maravilha
Exportada do sertão
Embora sem caboquinha
Deve ter outras coisinhas
Pra temperar o salão

Não passa ruge nem pó
As caboquinhas daí
Maquiadas no salão
Diferente das daqui
Mas deve ser quase igual
Porque quem vai pro sarau
Tá a fim de curtição
Piscar o olho e flertar
E de repente encontrar
O aro certo da mão

O grupo Radicais Livres
É que comanda o sarau
David Ferreira é um membro
Deste sarau radical
Parabéns alô Brasília
Pai e mãe irmãos e filhas
Abraços aos radicais
Um dia chega minha vez
De estar perto de vocês
No meio dos recitais

Nome: Nereu Ribeiro Soares
Idade: Trinta e uns
Profissão: Contador
Estado Civil: Indefinido
Lazer: Levitar em sonhos
Tipo Sanguíneo: bom
Coração: altaneiro, macio, amigo
Visão de mundo: maravilhoso, precisando de poucas mudanças
Qual a mudança? Cirurgia cardíaca

“Radical News”, novembro de 2006, p. 8.

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