VOZES QUE INSISTEM EM FALARSarau Radical reúne arte de São Sebastião e resume exclusão da periferia
Cristina Fausta
Repórter

Era noite de sábado em São Sebastião. Entre as ruas mal iluminadas e esburacadas da cidade vozes rompem o silêncio. São poetas, músicos, artistas plásticos e dançarinos. Em sua maioria, jovens pobres e mestiços. Pessoas que, sem recursos ou apoio do Governo, se valem das condições em que vivem para mostrar que são tão capazes de produzir arte quanto os jovens de classe média que vivem no Plano Piloto. Era noite de Sarau Radical, uma espécie de confraria onde é possível encontrar pessoas como o poeta Ezequiel Luiz Farias de Sena, o Zequinha. Com apenas quatro anos de idade, o exímio jogador de xadrez e fã do Legião Urbana, usa o microfone e se transforma em um porta-voz de sua comunidade. “O nome do meu pai é Caco; da minha mãe, Cacá Maria. Lá em casa tudo é caco. Sou filho da cacaria”, recita o menino.
De repente outro grupo entra em cena e surpreende: “Improviso de Rua” traz um hip hop que empolga o público; entre os integrantes está Rafael Antônio Ferreira, 19, um cadeirante que, apesar das limitações físicas, é o que apresenta a mais expressiva performance de força e coreografia no solo. “Eu dançava só, estou há mais de um ano no grupo e aprendi a amá-lo, sou respeitado aqui”, relata o cadeirante, que já se apresentou por duas vezes no circo do ator Marcos Frota, em São Paulo.
O Sarau Radical é um evento que há cerca de três anos se coloca como a única opção de lazer e cultura de São Sebastião e tem arrebanhado cerca de 500 jovens, entre participantes e público, que passaram a dedicar seu tempo à arte. O evento cresceu de tal forma que foi necessário mudar de local. Atualmente, o sarau acontece a cada segundo sábado do mês na Academia Golfinho, no bairro Centro. “O sarau é nossa única opção para sair da bagunça e ganharmos a liberdade”, comenta Péricles Alves, 16 anos, integrante do grupo de break “Katrina”. “Não somos marginais”, exclama Leandro Freitas, 17 anos. Membro do mesmo grupo, ele aproveita a oportunidade para dizer que a dança de rua, ao contrário do imaginário popular, é uma proposta que afasta o jovem da marginalidade. “Dedicamos quatro horas do nosso dia à dança, além dos estudos e família. Essa é uma forma de ocupar nosso tempo, já que não temos oportunidade de praticar um esporte ou fazer cursos de idiomas e o trabalho tem afastado nossos amigos das drogas”, completa Cristiano Oliveira Lima, também com 17 anos.
O sarau é uma iniciativa do grupo Radicais Livres, hoje formado por um núcleo de 10 pessoas e dezenas de colaboradores. “Não existe uma pessoa principal que organiza o evento”, comenta Paulo Sérgio Sena, conhecido pela comunidade como Paulo Dagomé. Ele insiste para que a reportagem entreviste outros membros do grupo. Mas não há saída, todos mencionam o nome e o exemplo de Dagomé e sua família. Outro destaque é Paulo Sérgio Júnior, o Devana Babu, escritor e ator, ele que foi destaque da matéria “Pequenos Gênios” do Caderno Brasília em abril deste ano. Dagomé e família são exemplos para a comunidade.
Talentos jovens surpreendem os espectadores e atraem público do Plano Piloto
Eles são muito esperados no sarau. Quando entram em cena impactam pela maestria com que encenam esquetes de companhias renomadas e de reconhecimento nacional. São os “Radicais Mirins”, crianças e adolescentes que levam para a comunidade de periferia um teatro de qualidade igual ou maior do que os encenados no Plano Piloto. “É inacreditável o que esses meninos sabem fazer. Eu já havia assistido esta peça antes e estou impressionada com a interpretação que eles deram aos personagens e como conseguiram interagir com o público”, comenta a estudante de Letras da Universidade de Brasília, Valéria Cristina Marques. A peça a que ela se refere é o esquete “Aula de Português”, da Companhia Os Melhores do Mundo. No papel principal está Devana Babu que chama atenção para os erros freqüentes da língua portuguesa.
Em seguida, forma-se uma fila de poetas que não param de recitar: são versos próprios e de autores conhecidos. Mas, o que comove é a indignação dos poetas. A postura crítica dos participantes tem atraído a classe média para a periferia. A reportagem verificou que é grande o número de jovens que cruzam a ponte JK para conhecer o que há do outro lado. “A genialidade do evento está na superação, na criatividade que eles têm para produzir cultura em condições precárias, é isso que me traz aqui”, comenta Daniel Pereira da Silva, 27, morador da Asa Norte. Andrea Teixeira mora no Sudoeste e acompanha o sarau desde outubro de 2005. “A capacidade de surpreender a cada sarau é comovente; é como se a todo tempo eles gritassem que são gente, que querem oportunidade, que querem vencer”, emociona-se. (C.F.)
Falta de sintonia entre a comunidade e a Administração dificulta ainda mais

Apesar de todos os talentos citados, o sarau sobrevive de solidariedade e idealismo. À medida em que [sic] o evento se aproxima, integrantes e até mesmo o público se mobilizam para montar a estrutura do sarau. “Muitas vezes tiramos dinheiro da nossa comida para pagar o transporte de equipamentos e pessoal para o local do sarau”, relata o poeta e ativista Vinícius Borba.
Paulo Dagomé relata que montou um “plano de cultura” para a cidade e o entregou nas mãos da diretora de cultura da Administração de São Sebastião, mas até hoje não obteve resposta. “Nossa relação com a Administração é distante, eles nunca nos dizem não e nunca dizem sim”, conta. A diretora de cultura de São Sebastião, Helen Virgini Naves, confirma que recebeu o projeto, mas retruca. “O projeto pode não ter sido executado da forma que ele queria”, respondeu. Em uma completa demonstração de desconhecimento, Helen Virgini disse ter (des)informações de que o Sarau Radical não acontece mais e que Paulo Dagomé teria mudado da cidade. “A notícia que tenho é que está tudo parado”, disse. O último sarau aconteceu no dia 12 (sábado) deste mês, e o organizador, Paulo Dagomé reside no mesmo endereço há sete anos, no bairro Residencial do Bosque.
Apesar dos “desencontros”, o administrador da cidade, Andrei José Braga, se diz fã de Devana Babu e do movimento cultural. “Conheço os Radicais Livres e, particularmente, o Devana Babu. Ele é uma prova de que a cultura movimenta e transforma a sociedade”, afirma o administrador. Na última semana, a Administração discutiu o orçamento participativo de 2007. A principal reivindicação da comunidade é que seja construído o centro cultural, segundo relatou o administrador. Segundo ele, a boa notícia é que a Terracap acabou de disponibilizar uma área para construção do centro de cultura e uma biblioteca no bairro São Bartolomeu. “Começaremos a buscar os recursos para viabilizar as obras ainda nesta gestão”, afirma o administrador que se colocou à disposição dos Radicais Livres. (C.F.)
Apesar dos “desencontros”, o administrador da cidade, Andrei José Braga, se diz fã de Devana Babu e do movimento cultural. “Conheço os Radicais Livres e, particularmente, o Devana Babu. Ele é uma prova de que a cultura movimenta e transforma a sociedade”, afirma o administrador. Na última semana, a Administração discutiu o orçamento participativo de 2007. A principal reivindicação da comunidade é que seja construído o centro cultural, segundo relatou o administrador. Segundo ele, a boa notícia é que a Terracap acabou de disponibilizar uma área para construção do centro de cultura e uma biblioteca no bairro São Bartolomeu. “Começaremos a buscar os recursos para viabilizar as obras ainda nesta gestão”, afirma o administrador que se colocou à disposição dos Radicais Livres. (C.F.)
Radicais Livres reclamam inserção de toda a periferia em políticas públicas
Marina Medleg
Repórter
Impossível não ficar perplexo. E até se perguntar por que, mesmo com resultados expressivos, os Radicais Livres não conseguem verba para “atravessar a ponte”, como costumam dizer, e mostrar o seu trabalho no Plano Piloto.
Paulo Dagomé arrisca uma resposta. Ela se encontra em rebuscados formulários. “Nunca conseguimos colocar um único projeto no FAC, por causa de uma ignorância em relação à linguagem exigida. É um verdadeiro idioma que nós não dominamos, é como aprender inglês. Há até um modo de chegar nesses lugares que nós desconhecemos. Isso nos marginaliza”.
O FAC, Fundo da Arte e da Cultura, a que ele se refere, é um dos principais incentivadores culturais do GDF. Grosseiramente falando, é uma espécie de patrocinador público, ligado à Secretaria de Cultura. Anualmente, por meio de edital e seleção pública o FAC aplica recursos em projetos artísticos e culturais de pessoas físicas e jurídicas residentes no Distrito Federal (decreto 14.085/92) – única condição para concorrer. Os Radicais Livres se enquadram, portanto, na exigência.
Mas Dagomé mostra um outro lado nada democrático. Defende que a vontade de criar não está necessariamente ligada à habilidade técnica de preencher formulários, prática normal para a maioria dos artistas da classe média que querem inscrever um projeto no FAC, seja de cinema, teatro, dança, literatura ou música. “A gente sabe fazer arte, mas não temos a obrigação de saber os rituais de preencher formulários. Isso é de uma outra alçada. Eu faço música, mas é difícil responder e colocar no papel qual o meu objetivo com isso”, justifica.
Questionado pela reportagem sobre as dificuldades levantadas pelos Radicais Livres, o Secretário de Cultura, Pedro Borio, através de sua assessoria, confirmou que realmente não existe na Secretaria a figura do consultor, que o cargo é mais comum em projetos com maior custo (Lei Rouanet) e acrescentou que “a Secretaria se disponibiliza inteiramente a dar direcionamento técnico na elaboração dos projetos, a atender dúvidas e orientar o proponente”. A ajuda, segundo ele, viria mostrando ao interessado projetos semelhantes e “realizando reuniões periódicas com técnicos que ajudam essas pessoas na prática”. O secretário deu ainda outra sugestão: “Se ele (Dagomé) reunir mais pessoas, podemos organizar uma reunião para orientá-los”.
Informado sobre a proposta do secretário de cultura, Dagomé não hesitou. “É pontual e imediatista. Dessa forma ele pode resolver o meu problema. Mas não tem como todas as vozes chegarem até ele. O resto da periferia vai continuar na mesma. O que eu acho é que deveria partir deles justamente a promoção de uma cultura na periferia”. E sugere, sentindo na pele a falta de políticas públicas: “as Diretorias Regionais de Cultura (DRCs), presentes em cada Administração das satélites, poderiam organizar campanhas orientando e incentivando os artistas a participarem dos editais públicos”.
Fonte: Hoje em Dia - Caderno Brasília, 20 a 26 de agosto de 2006, pp. 10-1.
Marina Medleg
Repórter
Impossível não ficar perplexo. E até se perguntar por que, mesmo com resultados expressivos, os Radicais Livres não conseguem verba para “atravessar a ponte”, como costumam dizer, e mostrar o seu trabalho no Plano Piloto.
Paulo Dagomé arrisca uma resposta. Ela se encontra em rebuscados formulários. “Nunca conseguimos colocar um único projeto no FAC, por causa de uma ignorância em relação à linguagem exigida. É um verdadeiro idioma que nós não dominamos, é como aprender inglês. Há até um modo de chegar nesses lugares que nós desconhecemos. Isso nos marginaliza”.
O FAC, Fundo da Arte e da Cultura, a que ele se refere, é um dos principais incentivadores culturais do GDF. Grosseiramente falando, é uma espécie de patrocinador público, ligado à Secretaria de Cultura. Anualmente, por meio de edital e seleção pública o FAC aplica recursos em projetos artísticos e culturais de pessoas físicas e jurídicas residentes no Distrito Federal (decreto 14.085/92) – única condição para concorrer. Os Radicais Livres se enquadram, portanto, na exigência.
Mas Dagomé mostra um outro lado nada democrático. Defende que a vontade de criar não está necessariamente ligada à habilidade técnica de preencher formulários, prática normal para a maioria dos artistas da classe média que querem inscrever um projeto no FAC, seja de cinema, teatro, dança, literatura ou música. “A gente sabe fazer arte, mas não temos a obrigação de saber os rituais de preencher formulários. Isso é de uma outra alçada. Eu faço música, mas é difícil responder e colocar no papel qual o meu objetivo com isso”, justifica.
Questionado pela reportagem sobre as dificuldades levantadas pelos Radicais Livres, o Secretário de Cultura, Pedro Borio, através de sua assessoria, confirmou que realmente não existe na Secretaria a figura do consultor, que o cargo é mais comum em projetos com maior custo (Lei Rouanet) e acrescentou que “a Secretaria se disponibiliza inteiramente a dar direcionamento técnico na elaboração dos projetos, a atender dúvidas e orientar o proponente”. A ajuda, segundo ele, viria mostrando ao interessado projetos semelhantes e “realizando reuniões periódicas com técnicos que ajudam essas pessoas na prática”. O secretário deu ainda outra sugestão: “Se ele (Dagomé) reunir mais pessoas, podemos organizar uma reunião para orientá-los”.
Informado sobre a proposta do secretário de cultura, Dagomé não hesitou. “É pontual e imediatista. Dessa forma ele pode resolver o meu problema. Mas não tem como todas as vozes chegarem até ele. O resto da periferia vai continuar na mesma. O que eu acho é que deveria partir deles justamente a promoção de uma cultura na periferia”. E sugere, sentindo na pele a falta de políticas públicas: “as Diretorias Regionais de Cultura (DRCs), presentes em cada Administração das satélites, poderiam organizar campanhas orientando e incentivando os artistas a participarem dos editais públicos”.
Fonte: Hoje em Dia - Caderno Brasília, 20 a 26 de agosto de 2006, pp. 10-1.
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on quinta-feira, 5 de junho de 2008
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