Noite suja  

Postado por d.b em


Era uma noite de sábado. As minhas energias joviais tinham se esgotado na sexta-feira. Aquela noite eu tinha escolhido para ficar em casa. Não que eu quisesse dormir cedo. Nada disso! Um pouco antes, havia ido a uma locadora ao lado de casa pegar um filme do Van Damme. Eu gosto de filmes. Minha vontade era simplesmente esta: assistir a um filme.
Aurélio, meu colega de quarto, chegara, com um galo enorme na testa, quando eu ainda assistia aos trailers e preparava a pipoca. Eu gosto de pipoca!
Aurélio estava com uma mulher que eu nunca havia visto e acho que ele também não. Chegaram rindo e cantando. Eu os cumprimentei. Ela não respondeu. Ele somente olhou para mim. Eu acho que ele olhou. Não tenho certeza, pois Aurélio é estrábico!
O filme começou e fui obrigado a ligar a legenda. Eu não gosto de filmes legendados. Mas não conseguia ouvir nada. Tinha muito barulho vindo do quarto de Aurélio. Não funcionou! Aumentei o volume. Não deu certo! Não conseguia me concentrar. Saí de casa!
Andei absorto por três quadras antes de perceber que estava com frio. Eu havia saído sem camisa e estava somente com minha calça de moletom rasgada. Ela é quentinha! Foi quando percebi que ao meu lado caminhava um decrépito vira-latas. Na verdade, o infeliz praticamente se arrastava. Chutei-o. Não gosto de cachorros decrépitos! Enquanto chutava o animal semimorto, ouvi alguém gritar: “vou chamar a polícia, seu maconheiro desgraçado!” Corri. Não sou maconheiro. Minha vida não é uma maravilha, mas também não sou um desgraçado. Mesmo assim, tinha certeza de que falava comigo, por isso corri.
Corri tanto que, depois de algumas quadras, já não me lembrava mais por que estava correndo. Tropecei em frente a um boteco chulezento. Acho que bati a cabeça na marquise do bar. Uma mulher que eu nunca havia visto me ajudou a levantar e me deu algo amargo para beber. “Vai te esquentar”, disse ela. Eu bebi. Não gostei, mas bebi! Pedi outro. Realmente não havia gostado, mas estava me esquentando. E eu estava com frio.
Fiquei por horas ali com a mulher desconhecida. Continuei bebendo mesmo depois de ter passado o frio. A bebida me deixou alegre, quente e fez a vontade de assistir ao filme do Van Damme passar. Aos poucos tudo ficou duplicado. Eu não conseguia mais fixar minha visão. E então tudo era colorido, depois difuso, e enfim negro. Apaguei.
(...)
Algumas horas depois estávamos entrando em minha casa. Entrei sorrindo e cantando. Ela também. No sofá da sala, Aurélio assistia ao filme que eu alugara. Acho que ele disse algo à mulher ao meu lado. Ela nada respondeu. Não tenho certeza se também disse algo para mim (não sei se já comentei, mas Aurélio é estrábico).
Entramos no quarto...
Acordei há 15 minutos. Não havia mulher ao meu lado nem dinheiro em minha carteira.

Cristiano Silva é sonâmbulo, tem uma cadela chamada Rubí e constantemente vai ao CONIC, onde gasta todo seu dinheiro de rapaz trabalhador

crisesilva@hotmail.com

This entry was posted on quinta-feira, 23 de outubro de 2008 at 09:53 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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