A decomposição da alma  

Postado por d.b em

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Minha poesia é o epitalâmio da razão e da loucura
Me encontro em um estado terminal, meu romantismo já não tem mais cura
Um câncer lírico alojou-se em meu coração
Agora me apaixono todo dia, não tenho mais salvação
Com o mal do século fui contaminado
Me sinto frágil e desesperado
Nas frias noites de lua cheia estou sempre triste e apaixonado

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Minha poesia é o flerte com a morte
O amor do ateu ao deus do norte
Uma força da natureza que o sangue é o mais afrodisíaco vinho
E o bordel mais acolhedor ele sempre me indica o caminho
Beberei em reverência ao inebriante Dioniso
Deus da alegria que me embriaga o juízo
Nas românticas odisséias regadas a homéricas bebedeiras
Dormindo com bruxas, fadas, e ninfas traiçoeiras
Imerso até o pescoço, até o tutano do osso
Naquela imunda devassidão
Sob escombros e pecados ela encontrou meu coração
Em meio àquela bestial sordidez
O amor veio inexorável como a embriaguez
Ela era um anjo, exalava sensualidade e ternura
Deixei meu coração na cama dessa criatura

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Minha poesia é o sexo dos anjos nos bosques do céu
E dos libertinos mortais numa suja cama de motel
Porque a fornicação é uma lasciva poesia em movimento
Tecida com esperma, sangue, carne e sentimento
Na épica noite da selvagem orgia
Nossos corpos entrelaçados conceberam a mais ardente poesia
Nossos gemidos ecoavam numa mesma melodia
Estávamos demasiadamente ébrios de prazer e de alegria

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Minha poesia é a guerra entre razão e coração
Que no âmago da minha alma travam uma sangrenta luta
Helena, sentimento despertado por uma prostituta
Que nos braços do sentimental cliente
Explodiu uma paixão ardente
E o desespero do poeta que no colo dessa meretriz
Encontrou o amor que sempre quis

Escrevo como quem transa ,escrevo como quem morre
Minha poesia são vinte anos de solidão
Bebendo, pecando, chorando, rezando, pedindo perdão
em outra vida espero escrever um poema diferente
encontrar a felicidade que nesta ficou ausente

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Minha poesia é a intoxicação dos meus neurônios
Causada pela inalação do perfume dos meus demônios
Que se incorporam na esbelta figura de uma mulher
Que por seus sortilégios minha carne é possuída
Na cama macia minha alma é vendida
Porque no amor perdi a fé

Escrevo como quem transa ,escrevo como quem morre
Minha poesia é o sentimento da mãe que perdeu o filho
O desespero do suicida que puxou o gatilho
Escapismo de um mundo de solidão e tortura
E que encontrou abrigo e compaixão dos vermes da sepultura

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Me decomponho em lágrimas e versos quando estou deprimido
Minha poesia é o brado de protesto do meu coração oprimido
Traduzo sentimentos tétricos e loucuras sem nexo
Escrevo com o sangue do meu coração e com sêmen do meu sexo

Escrevo como quem transa, escrevo como quem morre
Quando me encaro no espelho
Boca seca e olho vermelho
Contemplo uma face cadavérica e uma alma suja e turva
Meus olhos ejaculam lágrimas pois a tristeza me masturba


Mardônio Mello

This entry was posted on terça-feira, 4 de novembro de 2008 at 21:10 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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