O INÍCIO
Flor!
Simplesmente isto: Flor!
Não se sabia direito o porquê daquela oxítona tão majestosa, e que trazia consigo uma espécie de magia refletida na primeira letra maiúscula; era apenas aquilo, algo de importante relevância, algo que, talvez, orquestrasse uma finalidade ignorada, desconhecida, harmoniosa... Divina? Ainda não sabia, porém cria, era importante ter em mente tão linda delicadeza e suavidade; por que não, meu deus, o amor é isto mesmo: a razão entre duas almas que querem ser uma só; e que querem contemplar através da aurora os encantamentos mais puros da paixão, e se realmente existe, pela primeira vez, em primeira vista, irradiante hora, desvairado sentido, razão e impulso, certamente, ele acreditava.Era prelúdio de primavera naquela várzea ecumênica, a quimera que vestia sua mente só enxergava uma alma: a dela! Sim, por alguns instantes ele achava delirar ao vê-la entre as flores... Ora, se não fosse mais uma, era quase isso... E pensava, esforçava-se em manter aquele pensamento firme! Mais tarde a noite esconderia o sol, e na lembrança o vazio consumiria aquela próspera alma solitária.
De repente, como a suavidade do sopro de um alísio, ela surge no meio da noite, o aroma se espalhara quando naquele curto instante passara em despedida inconsciente e ele a fitava. Tinha certeza, quase que absoluta, que a obstinação que lhes uniria, clamava por chamá-la... Desesperava-se por não deixá-la partir. Quem nessa vida pôde sentir o que ele sentiu consegue entender, mas não explicar!
Capítulo II
Devaneios
O aroma, o aroma... Naquele instante tudo parecia se refletir, tudo: o momento, a quimera, o exato instante fugaz... Sim, era exatamente isso, o sentido não levava a outra compreensão – aquilo era ser feliz... Ela surgia, ele quase não percebia, e quando parecia o destino relutar numa conspiração, a força do traçado caminho colocar-lhes-ia frente a frente. Foi mágico, vinha em sua mente; não que alguns goles de álcool já teriam subido na cabeça, mas que a sobriedade lhe contemplara ao vê-la não é de se estranhar.
(Lembro que fiquei realmente sem jeito ao ver você falando com minha prima, dizendo que queria me conhecer).
Prontificados! Ele querendo abraçá-la, ela sem entender... É louco? Quem sabe tenha pensado: é ele! Foi o que ele pensou: é ela! Tudo ao acaso, e que acaso... o mesmo acaso que lhes colocaria no mesmo caminho uma outra vez (seria a última?), se na incerteza da vida não se sabe, só se sabe que deu certo.
(Lembro que você conheceu outra prima minha lá perto dos banheiros e ela perguntou da onde nos conhecíamos e você disse que estudava comigo... “eita diacho” mentiroso – risos e mais risos).
Era a flor, sim, a flor que queria abraçar naquele tão comemorativo dia, afinal de contas nada mais era do que virada de ano, ano novo, vida nova, vida bela... E se vida, agora, era estar ao lado da flor que coloria, mais que nunca, os seus não traçados planos, teria de ir, com toda certeza, ao encontro da vibrante cor, do singular aroma – da apaixonante atmosfera.
(Lembro de nós dois sentados perto daquela parede falsa, conversando... você me contou um monte de piadas e que eu quase morri de rir daquela das freiras que iam para o céu, foi a melhor piada que eu já ouvi até hoje).
Atrasado, mas fora. O atraso parecia mesmo ser um grande problema na vida dele – um “problemão!” – ao que falaria anos mais tarde numa mesa de bar a um antigo adversário de relacionamentos: Henrique! Na arena do encontro “casual”, no entanto, prostrada estava, algo dentro dela sabia que ele viria, de alguma maneira... “Ele disse, ele vem”, e aquilo martelava sua mente enquanto o baile parecia consumir sua paciência, paciência, paciência mulher...
(Pensei que não fôssemos nos ver na virada do ano, mas quando você chegou, morri de felicidade...).
- Não – ponderou, ele. –, quem traça a vida somos nós mesmos!
Porém, antes disso, necessita-se da ajudinha do acaso destino. Cumprida a meta, fica às almas a união!
*
* *
Flor! Não pensara outro nome o dia inteiro.
Contemplava o azul do mar, o sol se pondo na linha do horizonte... Sentia a maresia aos ósculos com sua face, o cheirinho de brisa lhe invadia as narinas... E ela? O que devia está fazendo naquele instante? O pensamento era firme, adorava aquele momento em contato com a natureza (os enxutos diriam: naturalístico!), que parecia lhe perguntar quando novamente a veria... Quando, quando meu deus! Era uma incerteza... Talvez amanhã, daqui algumas semanas, meses, anos, décadas... Não, nada disso, agora só no carnaval, o carnaval, o car-na-val... Ai! O carnaval... e um tímido sorriso (olhos fechados) estampava-se na face! Não tardava para que percebesse que lembrar era uma coisa boa, lhe fazia bem, pelo menos... Tudo estranho, mas bonito; tudo rápido, mas intenso; um pouco incerto, porém romântico, fabuloso...
Capítulo III
Sozinho
Tudo na vida vem e vai, é o turbilhão da existência, a desproporção do tempo... O que se ganha, pode, no derradeiro momento, num piscar de olhos, pelo impulso do detrimento, se perder. Tudo que é bom, já dizia o ditado, dura pouco. Não importava! Aquilo era que ascendia a magia... Ele apenas eliminava de seu consciente os devaneios mais aturdidos... O que importava? Afinal, ela é algo que jamais poderia fugir da mente – era o que mais pensava quando, ao olhar o vai-e-vem dos carros, tagarelava consigo mesmo e forçava a memória a elucidar o encontro marcante. Poderiam vir meses e anos, relacionamentos e interferências no caminho, porém sabia bem lá no fundo que o envolver, o tremular de dois corpos num só, apenas lhe seria singular junto à Flor... Quem sabe o tempo lhes pudesse provar, quem sabe num futuro não já teria, ela, um filho, em um nunca modesto amor? Não importava! Ele seguiria com a pequenina chama acesa ao minúsculo sinal de sua dona em retorno plenamente. Aquela noite, sim... Quando então a puxava ao seu encontro, sentia, ao tempo em que conduzia aquele trêmulo corpo confuso de encontro ao seu, o aroma se espalhar no recinto, no curto interstício que pouco a pouco consumia, em segundos, as almas em beijos jamais esquecidos – ardentes, por questão de estilo! Ela suspirava, os olhos que lhe fitavam tão de perto pareciam aquiescer-se de satisfação, afinal de contas, ainda era aquela noite; o instante não lhe fugia, parecia encarnar de forma inconformada a partida, até ser pego em meio aos transeuntes do mercado
(ao chão como indigente? Vadio?)
que o viam numa desastrosa situação: os restos do bagaço da cana do dia interior lhe serviam de encosto e os pequenos córregos do aterro sanitário, a deslizarem pela saliência do cimento corroído, lhe insensibilizava as narinas.
- Olha só aquele vagabundo, deve ter vilipendiado por toda a madrugada e resolveu transformar um pedaço da Calçada da Fama em cama particular!
Calçada da Fama era como chamavam um dos principais acessos do Mercado da Quarenta, que, naquela época, se notabilizava por um emaranhado de botequins de péssima estrutura, capazes de receber da mais baixa ralé, aos mais exímios grupos familiares da aristocracia. Ali políticos e empresários assumiam posições de magnatas ao entrarem, às surdinas, nos mais afamados cabarés, sem que fossem notados – todo um sistema se interligava ao encontro dos principais dividendos que, realmente, sustentavam aquela paupérrima população fundada por burros de carga e estivadores. Os alcoólatras, labrocheiros, não continham suas injúrias e ao nascer do sol tentavam relembrar o caminho de seus lares.
Agora, visto de maneira arredia, pouco a pouco, perdia o senso de sociedade, que o expurgava dos mais simplórios convívios, sob a alcunha ter sido ele infectado pelo bacilo de Hansen – causa da emigração de famílias, poetas e comerciantes à procura da cura na metrópole de São Paulo.
*
* *
Parnaíba era uma cidade despojada, entregue à proeminência de um dos braços mais ricos do rio que lhe soerguia o espírito em contentamento. Etnias de diversos estados e nações se fixaram numa campanha que tinha, de início, o objetivo de se abster das perseguições inquisitórias de Portugal e, em áureo tempo, à busca da sonhada auto-sustentação mercantil. Tempos distintos da História, mas vivos na sociedade que assistiu florescer a sua identidade. Fora naquele contexto de crescimento e intrigas subalternas que teria, ele, Barnabé, vindo ao mundo. Àquela altura, certo eram os viventes da ganância comercial, logo não tardaria a se pronunciar como um dos mais altivos herdeiros da ingenuidade de seus pais que, num período de 30 anos, perderiam todo o império – entregando-o, em repartição, a uma meia dúzia de inconfidentes e estelionatários de intermitência.
Capítulo IV
Duas Bocas
A vida de Barnabé não lhe sorria tão normal. A explicação não vinha de tão longe. O que consumia suas vontades não mais permitia o entreabrir de asas... Prisioneiro de seu próprio destino? Talvez fosse... Nada mais que lembranças de um curto instante perdidas no tempo, tentando encontrar um papel coadjuvante. As pedras no meio do caminho e o vento frio da madrugada lhe acompanhavam dia após dia, apenas. A musa partia e as esperanças nunca mais lhes retornariam ao olhar – a oportunidade de dizer que a amava não existiu. Racional? Fora racional, mesmo sabendo do tamanho amor! Como que sentindo algo partir de sua garganta grita, grita como ninguém, grita algo que jamais se viu na terra. Aquele grito parecia uma mistura de pavor e dor...
- Biankaaa!
O ser humano tem disso, hoje, martirizado por sua própria prisão, chorava por dentro... O que era um “eu te amo”? O que, meu deus, tão lindo é o amor, tão mágica é a magia entre duas almas apaixonadas...
(“Eu-Te-Amo”! Por quê? Por que não disse?)
Que importância tem em se negar pela razão? A razão não é nada diante do amor, muito menos da paixão... Hoje, em tão tortuosos dias sem céu, sem verde, sem alegria, querer, intensidade, sonho, ele chora...
*
* *
Flor!
Sentido maior, a parte mais fina de uma substância: o ser; encanto, formosura, universo de entendimento, subversões perdidas na quimera, presença da beleza. A tristeza de não tê-la sobreviveria ao caos da vida? Ora, a vida parece bela, outras, uma penumbra que insiste em explicar o desacordo de destinos tão magníficos, traçados sob a intensa magia do querer... Amor? Seria mesmo amor? Nunca havia tocado nesta palavra tão pequenina, dissílabo tão grandioso
(explique-a, se puder)
e capaz de abobadar o mais feroz animal – seres humanos, seres humanos precisando de um sentido a ser dado na vida, à espera da resposta dicotômica. Ora, não é exatamente a vida uma dicotomia? Ele sabia e era justamente por isso que a havia perdido; por quanto tempo? Não imaginava... Queria um contato, ao menos um resquício de vida para saber da vitalidade de sua musa!
*
* *
Ao relento, uma pequena alma embargava seus prantos em um travesseiro. O sentido maior da clareza existencial mais parecia um véu negro banhado pela frieza de pais que não entendiam tamanha depressão... Restava-lhe a lembrança do beijo! O abraço quente e seguro ainda lhe invadia o corpo seminu, agora, ao lençol decorado – era um ser puro, nunca havia amado tanto. As lembranças pareciam povoar a mente jurada em mágoa transtornada pela distância, pela separação daquele olhar transmissor de uma sinceridade nunca vista antes... Ela era apenas uma garota, uma garota aprendendo a viver e agora, ai!, agora sabendo realmente o que era, o que era o tão encantado e afamado amor... Esquisito, não? Nunca foi de crer tanto nele, desde novinha viva aos quatro cantos do mundo a jurar seus serviços, unicamente, a Deus!
Apegava-se aos pequeninos detalhes daquele instantâneo e derradeiro encontro:
- Medicina!
- Medicina? Mentira! – ele contestava.
- Sim! – ela sorria. – Por quê? Não acredita na minha capacidade de passar?
- Não! Claro que não é isso! Observo quanta coincidência há entre nós!
- Sério?
- Sim, sério mesmo!
Naquela noite a arrebentação cuspia escumas que encantavam a noite banhada pelos raios lunares! A lua espelhava-se nas águas salgadas e refletiam um azul-marinho. Barcarolas, ao longe, com suas pequeninas luzes de identificação, entrecortavam de uma ponta a outra a linha do horizonte. Os sons que se espalhavam, os jovens que dançavam e os casais que se formavam não concorriam àquele momento, jamais esquecido: duas bocas se enamoravam sem voracidade, como que querendo apreciar cada minutinho procedente; duas simples bocas que se queriam e se esvaíam perdidas pelo êxtase... Cada minuto, cada segundo, cada momento...
Flor!
Simplesmente isto: Flor!
Não se sabia direito o porquê daquela oxítona tão majestosa, e que trazia consigo uma espécie de magia refletida na primeira letra maiúscula; era apenas aquilo, algo de importante relevância, algo que, talvez, orquestrasse uma finalidade ignorada, desconhecida, harmoniosa... Divina? Ainda não sabia, porém cria, era importante ter em mente tão linda delicadeza e suavidade; por que não, meu deus, o amor é isto mesmo: a razão entre duas almas que querem ser uma só; e que querem contemplar através da aurora os encantamentos mais puros da paixão, e se realmente existe, pela primeira vez, em primeira vista, irradiante hora, desvairado sentido, razão e impulso, certamente, ele acreditava.Era prelúdio de primavera naquela várzea ecumênica, a quimera que vestia sua mente só enxergava uma alma: a dela! Sim, por alguns instantes ele achava delirar ao vê-la entre as flores... Ora, se não fosse mais uma, era quase isso... E pensava, esforçava-se em manter aquele pensamento firme! Mais tarde a noite esconderia o sol, e na lembrança o vazio consumiria aquela próspera alma solitária.
De repente, como a suavidade do sopro de um alísio, ela surge no meio da noite, o aroma se espalhara quando naquele curto instante passara em despedida inconsciente e ele a fitava. Tinha certeza, quase que absoluta, que a obstinação que lhes uniria, clamava por chamá-la... Desesperava-se por não deixá-la partir. Quem nessa vida pôde sentir o que ele sentiu consegue entender, mas não explicar!
Capítulo II
Devaneios
O aroma, o aroma... Naquele instante tudo parecia se refletir, tudo: o momento, a quimera, o exato instante fugaz... Sim, era exatamente isso, o sentido não levava a outra compreensão – aquilo era ser feliz... Ela surgia, ele quase não percebia, e quando parecia o destino relutar numa conspiração, a força do traçado caminho colocar-lhes-ia frente a frente. Foi mágico, vinha em sua mente; não que alguns goles de álcool já teriam subido na cabeça, mas que a sobriedade lhe contemplara ao vê-la não é de se estranhar.
(Lembro que fiquei realmente sem jeito ao ver você falando com minha prima, dizendo que queria me conhecer).
Prontificados! Ele querendo abraçá-la, ela sem entender... É louco? Quem sabe tenha pensado: é ele! Foi o que ele pensou: é ela! Tudo ao acaso, e que acaso... o mesmo acaso que lhes colocaria no mesmo caminho uma outra vez (seria a última?), se na incerteza da vida não se sabe, só se sabe que deu certo.
(Lembro que você conheceu outra prima minha lá perto dos banheiros e ela perguntou da onde nos conhecíamos e você disse que estudava comigo... “eita diacho” mentiroso – risos e mais risos).
Era a flor, sim, a flor que queria abraçar naquele tão comemorativo dia, afinal de contas nada mais era do que virada de ano, ano novo, vida nova, vida bela... E se vida, agora, era estar ao lado da flor que coloria, mais que nunca, os seus não traçados planos, teria de ir, com toda certeza, ao encontro da vibrante cor, do singular aroma – da apaixonante atmosfera.
(Lembro de nós dois sentados perto daquela parede falsa, conversando... você me contou um monte de piadas e que eu quase morri de rir daquela das freiras que iam para o céu, foi a melhor piada que eu já ouvi até hoje).
Atrasado, mas fora. O atraso parecia mesmo ser um grande problema na vida dele – um “problemão!” – ao que falaria anos mais tarde numa mesa de bar a um antigo adversário de relacionamentos: Henrique! Na arena do encontro “casual”, no entanto, prostrada estava, algo dentro dela sabia que ele viria, de alguma maneira... “Ele disse, ele vem”, e aquilo martelava sua mente enquanto o baile parecia consumir sua paciência, paciência, paciência mulher...
(Pensei que não fôssemos nos ver na virada do ano, mas quando você chegou, morri de felicidade...).
- Não – ponderou, ele. –, quem traça a vida somos nós mesmos!
Porém, antes disso, necessita-se da ajudinha do acaso destino. Cumprida a meta, fica às almas a união!
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Flor! Não pensara outro nome o dia inteiro.
Contemplava o azul do mar, o sol se pondo na linha do horizonte... Sentia a maresia aos ósculos com sua face, o cheirinho de brisa lhe invadia as narinas... E ela? O que devia está fazendo naquele instante? O pensamento era firme, adorava aquele momento em contato com a natureza (os enxutos diriam: naturalístico!), que parecia lhe perguntar quando novamente a veria... Quando, quando meu deus! Era uma incerteza... Talvez amanhã, daqui algumas semanas, meses, anos, décadas... Não, nada disso, agora só no carnaval, o carnaval, o car-na-val... Ai! O carnaval... e um tímido sorriso (olhos fechados) estampava-se na face! Não tardava para que percebesse que lembrar era uma coisa boa, lhe fazia bem, pelo menos... Tudo estranho, mas bonito; tudo rápido, mas intenso; um pouco incerto, porém romântico, fabuloso...
Capítulo III
Sozinho
Tudo na vida vem e vai, é o turbilhão da existência, a desproporção do tempo... O que se ganha, pode, no derradeiro momento, num piscar de olhos, pelo impulso do detrimento, se perder. Tudo que é bom, já dizia o ditado, dura pouco. Não importava! Aquilo era que ascendia a magia... Ele apenas eliminava de seu consciente os devaneios mais aturdidos... O que importava? Afinal, ela é algo que jamais poderia fugir da mente – era o que mais pensava quando, ao olhar o vai-e-vem dos carros, tagarelava consigo mesmo e forçava a memória a elucidar o encontro marcante. Poderiam vir meses e anos, relacionamentos e interferências no caminho, porém sabia bem lá no fundo que o envolver, o tremular de dois corpos num só, apenas lhe seria singular junto à Flor... Quem sabe o tempo lhes pudesse provar, quem sabe num futuro não já teria, ela, um filho, em um nunca modesto amor? Não importava! Ele seguiria com a pequenina chama acesa ao minúsculo sinal de sua dona em retorno plenamente. Aquela noite, sim... Quando então a puxava ao seu encontro, sentia, ao tempo em que conduzia aquele trêmulo corpo confuso de encontro ao seu, o aroma se espalhar no recinto, no curto interstício que pouco a pouco consumia, em segundos, as almas em beijos jamais esquecidos – ardentes, por questão de estilo! Ela suspirava, os olhos que lhe fitavam tão de perto pareciam aquiescer-se de satisfação, afinal de contas, ainda era aquela noite; o instante não lhe fugia, parecia encarnar de forma inconformada a partida, até ser pego em meio aos transeuntes do mercado
(ao chão como indigente? Vadio?)
que o viam numa desastrosa situação: os restos do bagaço da cana do dia interior lhe serviam de encosto e os pequenos córregos do aterro sanitário, a deslizarem pela saliência do cimento corroído, lhe insensibilizava as narinas.
- Olha só aquele vagabundo, deve ter vilipendiado por toda a madrugada e resolveu transformar um pedaço da Calçada da Fama em cama particular!
Calçada da Fama era como chamavam um dos principais acessos do Mercado da Quarenta, que, naquela época, se notabilizava por um emaranhado de botequins de péssima estrutura, capazes de receber da mais baixa ralé, aos mais exímios grupos familiares da aristocracia. Ali políticos e empresários assumiam posições de magnatas ao entrarem, às surdinas, nos mais afamados cabarés, sem que fossem notados – todo um sistema se interligava ao encontro dos principais dividendos que, realmente, sustentavam aquela paupérrima população fundada por burros de carga e estivadores. Os alcoólatras, labrocheiros, não continham suas injúrias e ao nascer do sol tentavam relembrar o caminho de seus lares.
Agora, visto de maneira arredia, pouco a pouco, perdia o senso de sociedade, que o expurgava dos mais simplórios convívios, sob a alcunha ter sido ele infectado pelo bacilo de Hansen – causa da emigração de famílias, poetas e comerciantes à procura da cura na metrópole de São Paulo.
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Parnaíba era uma cidade despojada, entregue à proeminência de um dos braços mais ricos do rio que lhe soerguia o espírito em contentamento. Etnias de diversos estados e nações se fixaram numa campanha que tinha, de início, o objetivo de se abster das perseguições inquisitórias de Portugal e, em áureo tempo, à busca da sonhada auto-sustentação mercantil. Tempos distintos da História, mas vivos na sociedade que assistiu florescer a sua identidade. Fora naquele contexto de crescimento e intrigas subalternas que teria, ele, Barnabé, vindo ao mundo. Àquela altura, certo eram os viventes da ganância comercial, logo não tardaria a se pronunciar como um dos mais altivos herdeiros da ingenuidade de seus pais que, num período de 30 anos, perderiam todo o império – entregando-o, em repartição, a uma meia dúzia de inconfidentes e estelionatários de intermitência.
Capítulo IV
Duas Bocas
A vida de Barnabé não lhe sorria tão normal. A explicação não vinha de tão longe. O que consumia suas vontades não mais permitia o entreabrir de asas... Prisioneiro de seu próprio destino? Talvez fosse... Nada mais que lembranças de um curto instante perdidas no tempo, tentando encontrar um papel coadjuvante. As pedras no meio do caminho e o vento frio da madrugada lhe acompanhavam dia após dia, apenas. A musa partia e as esperanças nunca mais lhes retornariam ao olhar – a oportunidade de dizer que a amava não existiu. Racional? Fora racional, mesmo sabendo do tamanho amor! Como que sentindo algo partir de sua garganta grita, grita como ninguém, grita algo que jamais se viu na terra. Aquele grito parecia uma mistura de pavor e dor...
- Biankaaa!
O ser humano tem disso, hoje, martirizado por sua própria prisão, chorava por dentro... O que era um “eu te amo”? O que, meu deus, tão lindo é o amor, tão mágica é a magia entre duas almas apaixonadas...
(“Eu-Te-Amo”! Por quê? Por que não disse?)
Que importância tem em se negar pela razão? A razão não é nada diante do amor, muito menos da paixão... Hoje, em tão tortuosos dias sem céu, sem verde, sem alegria, querer, intensidade, sonho, ele chora...
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Flor!
Sentido maior, a parte mais fina de uma substância: o ser; encanto, formosura, universo de entendimento, subversões perdidas na quimera, presença da beleza. A tristeza de não tê-la sobreviveria ao caos da vida? Ora, a vida parece bela, outras, uma penumbra que insiste em explicar o desacordo de destinos tão magníficos, traçados sob a intensa magia do querer... Amor? Seria mesmo amor? Nunca havia tocado nesta palavra tão pequenina, dissílabo tão grandioso
(explique-a, se puder)
e capaz de abobadar o mais feroz animal – seres humanos, seres humanos precisando de um sentido a ser dado na vida, à espera da resposta dicotômica. Ora, não é exatamente a vida uma dicotomia? Ele sabia e era justamente por isso que a havia perdido; por quanto tempo? Não imaginava... Queria um contato, ao menos um resquício de vida para saber da vitalidade de sua musa!
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Ao relento, uma pequena alma embargava seus prantos em um travesseiro. O sentido maior da clareza existencial mais parecia um véu negro banhado pela frieza de pais que não entendiam tamanha depressão... Restava-lhe a lembrança do beijo! O abraço quente e seguro ainda lhe invadia o corpo seminu, agora, ao lençol decorado – era um ser puro, nunca havia amado tanto. As lembranças pareciam povoar a mente jurada em mágoa transtornada pela distância, pela separação daquele olhar transmissor de uma sinceridade nunca vista antes... Ela era apenas uma garota, uma garota aprendendo a viver e agora, ai!, agora sabendo realmente o que era, o que era o tão encantado e afamado amor... Esquisito, não? Nunca foi de crer tanto nele, desde novinha viva aos quatro cantos do mundo a jurar seus serviços, unicamente, a Deus!
Apegava-se aos pequeninos detalhes daquele instantâneo e derradeiro encontro:
- Medicina!
- Medicina? Mentira! – ele contestava.
- Sim! – ela sorria. – Por quê? Não acredita na minha capacidade de passar?
- Não! Claro que não é isso! Observo quanta coincidência há entre nós!
- Sério?
- Sim, sério mesmo!
Naquela noite a arrebentação cuspia escumas que encantavam a noite banhada pelos raios lunares! A lua espelhava-se nas águas salgadas e refletiam um azul-marinho. Barcarolas, ao longe, com suas pequeninas luzes de identificação, entrecortavam de uma ponta a outra a linha do horizonte. Os sons que se espalhavam, os jovens que dançavam e os casais que se formavam não concorriam àquele momento, jamais esquecido: duas bocas se enamoravam sem voracidade, como que querendo apreciar cada minutinho procedente; duas simples bocas que se queriam e se esvaíam perdidas pelo êxtase... Cada minuto, cada segundo, cada momento...
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on segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
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