Brasília, 23 de fevereiro de 2029. Escritório de
Advocacia.
- Entra, Tio!
Achei estranho o vocativo. É verdade que o Dr.
Ezequiel Luiz Farias de Sena, advogado de causas
cíveis, é meu sobrinho. Mas ter sobrinhos já me
soava estranho desde os 13 anos, quando nasceu o
primogênito de Marlúcia e todos, eu e meus irmãos,
nos tornamos precocemente tios. Agora, por
conta do fato terrível que relatar não posso, eis-me
consultando um advogado que, nesse caso específico,
é meu sobrinho - Zequinha.
- Sente-se. Quer um café? - pergunta Zequinha,
com a mão ao telefone, solícito, a postos, gentil.
- Não, obrigado. Uma água talvez. E seu pai, vai
bem? - pergunto.
- O senhor bem conhece meu pai, Tio; ele está
sempre muito além do bem e do mal – responde
ele, espirituoso, denunciando, evidentemente,
vestígios de sua passagem pelo GEN (Grupo de
Estudos Nietzscheanos).
Sentado ali, de frente para Zequinha, enquanto ele
arrumava os papéis e livros espalhados pela mesa
de mármore e ligava para a secretária para pedir
água, tive aqueles segundos suficientes para olhar
os livros na estante e voltar algumas dezenas de
anos no passado. Um passado que Zequinha não
conheceu e que de nada adiantaria conhecer. O
homem à minha frente acaba de virar pai. Pai do
representante da quinta geração. A saber: José
Gonçalves, que nos anos 1930 gerou a Avelino
Gonçalves, que nos anos 1960 gerou a Paulo Sena,
que nos anos 2000 gerou Ezequiel Sena, que neste
ano de 2029 gerou a Antonio Tibúrcio. Antonio
recebeu esse nome em homenagem a Antonio
Tibúrcio, avô de minha mãe e cuja história integral
só ela conhece suficientemente. Antonio Tibúrcio
Farias de Sena é só um bebê. Chora, mama, dorme
e faz cocô e pipi. Eis o resumo da vida que leva o
pequeno Antonio. E parece que essa rotina não
difere muito da minha, na altura dos meus 60
anos. Antonio não conhece o passado. E de nada
lhe adiantará conhecer. Ali, pois, entre os livros
técnicos, estão duas obras cujas lombadas me são
familiares: Sangue Coagulado, quarto livro
publicado por Devana Babu, irmão mais velho de
Zequinha, crítico literário em Brasília; e O Cabo
da Tormentas, meu primeiro livro de contos,
publicado há 20 anos. A secretária interrompe
meus pensamentos com uma bandeja. Vi a bandeja,
vi o copo com água. E vi que, muito provavelmente,
a mãe do pequeno Antônio deve ser muito
condescendente, ou subestima os perigos desta
vida.
- Tio, eu li todo o processo e preciso tirar algumas
dúvidas com o senhor - retorna Zequinha, com um
aspecto que não era de curiosidade, aquela curiosidade
cúmplice; não. Era um técnico que estava ali.
Era um técnico - Dr. Ezequiel Luiz Farias de Sena -
que precisava de dados, elementos, arestas, indícios
para vencer uma causa. E vencer a causa não
era necessariamente o que eu mais queria naquele
momento. Meu problema era com os efeitos;
irreparáveis, irrevogáveis.
- Em 2009, há exatos 20 anos, o senhor...
Ou seja, o passado se me impõe. Imutável e pontual,
ele estava ali, à minha frente, e me apresentava
a fatura.
Advocacia.
- Entra, Tio!
Achei estranho o vocativo. É verdade que o Dr.
Ezequiel Luiz Farias de Sena, advogado de causas
cíveis, é meu sobrinho. Mas ter sobrinhos já me
soava estranho desde os 13 anos, quando nasceu o
primogênito de Marlúcia e todos, eu e meus irmãos,
nos tornamos precocemente tios. Agora, por
conta do fato terrível que relatar não posso, eis-me
consultando um advogado que, nesse caso específico,
é meu sobrinho - Zequinha.
- Sente-se. Quer um café? - pergunta Zequinha,
com a mão ao telefone, solícito, a postos, gentil.
- Não, obrigado. Uma água talvez. E seu pai, vai
bem? - pergunto.
- O senhor bem conhece meu pai, Tio; ele está
sempre muito além do bem e do mal – responde
ele, espirituoso, denunciando, evidentemente,
vestígios de sua passagem pelo GEN (Grupo de
Estudos Nietzscheanos).
Sentado ali, de frente para Zequinha, enquanto ele
arrumava os papéis e livros espalhados pela mesa
de mármore e ligava para a secretária para pedir
água, tive aqueles segundos suficientes para olhar
os livros na estante e voltar algumas dezenas de
anos no passado. Um passado que Zequinha não
conheceu e que de nada adiantaria conhecer. O
homem à minha frente acaba de virar pai. Pai do
representante da quinta geração. A saber: José
Gonçalves, que nos anos 1930 gerou a Avelino
Gonçalves, que nos anos 1960 gerou a Paulo Sena,
que nos anos 2000 gerou Ezequiel Sena, que neste
ano de 2029 gerou a Antonio Tibúrcio. Antonio
recebeu esse nome em homenagem a Antonio
Tibúrcio, avô de minha mãe e cuja história integral
só ela conhece suficientemente. Antonio Tibúrcio
Farias de Sena é só um bebê. Chora, mama, dorme
e faz cocô e pipi. Eis o resumo da vida que leva o
pequeno Antonio. E parece que essa rotina não
difere muito da minha, na altura dos meus 60
anos. Antonio não conhece o passado. E de nada
lhe adiantará conhecer. Ali, pois, entre os livros
técnicos, estão duas obras cujas lombadas me são
familiares: Sangue Coagulado, quarto livro
publicado por Devana Babu, irmão mais velho de
Zequinha, crítico literário em Brasília; e O Cabo
da Tormentas, meu primeiro livro de contos,
publicado há 20 anos. A secretária interrompe
meus pensamentos com uma bandeja. Vi a bandeja,
vi o copo com água. E vi que, muito provavelmente,
a mãe do pequeno Antônio deve ser muito
condescendente, ou subestima os perigos desta
vida.
- Tio, eu li todo o processo e preciso tirar algumas
dúvidas com o senhor - retorna Zequinha, com um
aspecto que não era de curiosidade, aquela curiosidade
cúmplice; não. Era um técnico que estava ali.
Era um técnico - Dr. Ezequiel Luiz Farias de Sena -
que precisava de dados, elementos, arestas, indícios
para vencer uma causa. E vencer a causa não
era necessariamente o que eu mais queria naquele
momento. Meu problema era com os efeitos;
irreparáveis, irrevogáveis.
- Em 2009, há exatos 20 anos, o senhor...
Ou seja, o passado se me impõe. Imutável e pontual,
ele estava ali, à minha frente, e me apresentava
a fatura.
Luiz Cláudio é o correspondente dos Radicais Livres em Salvador-BA
e tio de Ezequiel Luiz, vulgo Zeca Oreba, o carinha da foto acima.
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on sábado, 14 de março de 2009
at 07:59
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Contos... Crônicas... E outras prosas...
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