LEVANTE E LUTE # V  

Postado por d.b em


# V........................................................................................por Vinícius Borba*




Profissão Repórter faz reportagem sensacionalista sobre violência em São Sebastião


No dia 28 de julho, terça-feira, foi ao ar mais uma edição do programa "Profissão Repórter", da Rede Globo. Neste “episódio”, o tema era a violência de gangues na periferia de Brasília. E para tristeza da comunidade, a cidade foi retratada como um “Faroeste Caboclo”, além da citação de “Cidade Mais Violenta do DF”, com base em dados da Polícia Civil. “De toda forma, mesmo que a informação não esteja incorreta, a reportagem tem que atender a um princípio de pluralidade”, diz o professor do Departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), Luiz Martins.


Mostrarem as dificuldades e problemas da localidade não seria problema se os jornalistas tivessem também publicado os movimentos de cultura de paz aqui existentes. Não, não. O importante e destacado mesmo foram as marcas de bala nas paredes e relatos pobres de jovens marginais querendo aparecer na TV. O "Tribuna de São Sebastião" entrevistou um dos jovens que aparecem na reportagem para saber como foi a abordagem dos globais. E descobrimos o que eles realmente estavam atrás em São Sebastião. Eles queriam sangue!



Onde ficou a cultura de paz?

O programa é chefiado por Caco Barcelos, jornalista famoso no país. A equipe que veio era composta por Felipe Gutierrez e Caroline Kleinübing. Eles estiveram em visita ao Centro Educacional (CED) São Francisco, onde entrevistaram personagens como a Diretora Leisa Sasso e alguns estudantes. Apesar de serem formados, os repórteres não conseguiram, durante todo o dia, algum relato mais contundente, mostrando a violência ou algum envolvimento dos alunos. Naquele dia, 10 de julho, estavam sendo encerradas as aulas no prédio provisório do CED São Francisco. A escola inteira seria logo transferida para o novo prédio construído no bairro de mesmo nome da escola. Naquele exato dia os alunos estavam se despedindo da escola. E fizeram para tanto um grande Festival Cultural, com circo, sapateado e muita arte. Mas o "Profissão Repórter" não publicou nada sobre a arte ali apresentada. Pelo contrário. Isolou dois alunos de sapateado num canto - enquanto o sarau rolava atrás deles - e começou um interrogatório duro e seco. Só se mostrou a cultura de violência. A cultura de paz foi jogada ao vento.



Foto: Herick Murad


Cultura de paz em segundo plano. Arte não dá IBOPE


O interrogatório

“Eles perguntaram como era minha atuação em gangues, só por que eu moro na quadra 202. Foi constrangedor. Queria falar sobre os projetos da escola. Mas eles retomavam a discussão sobre violência. Eles são péssimos. Deviam voltar para a faculdade”, disse Gleiton Soares, 20 anos, aluno do CED São Francisco. Ele também alega que os repórteres induziam constantemente as respostas dele e dos outros entrevistados. Segundo Gleiton, de tudo que eles disseram sobre paz e cultura dos jovens da cidade, o "Profissão" só publicou os pequenos trechos sobre gangues, ignorando o outro lado da questão.


A diretora, Leisa Sasso, diz ser frustrante uma equipe de reportagem passar dois dias dentro de uma escola com projetos diferentes para envolver os alunos longe da violência, não mostrar praticamente nada e ainda tratá-los como marginais. “É uma minoria que faz estes crimes, nós não somos esta violência. A cidade fica estigmatizada como um todo”.


Foto: Herick Murad

Diretora Leisa entrevistada no interior do colégio


Cidade toda paga o preço


Para o professor Luiz Martins, da UnB, no Brasil atualmente há, paralelo à criminalidade, outro movimento. “O que acontece no Brasil hoje é que, por toda a mobilização dos movimentos sociais da sociedade civil, ao lado da cultura de violência, existem ações de cultura de paz, e pelo que se viu no programa não foram mostradas e isto já caracteriza uma tendência, uma parcialidade”, disse o professor.
O programa "Profissão Repórter" tem um blog na internet, pelo qual seus jornalistas comentam as reportagens. Carol Kleinübing, a repórter que esteve em São Sebastião e participou do grande sarau organizado na tarde em que ela esteve lá, relata sobre a experiência de andar pela cidade, segundo ela, "de norte a sul, de leste a oeste". Afirma não ter visto nenhuma boa oportunidade para solucionar as dificuldades da comunidade. E ainda diz também ter perguntado a todas as pessoas por quem passou e entrevistou se haviam opções de lazer, cultura ou esporte, tendo tido como resposta que a cidade "não tem nada", de todos os jovens do local.

Neste relato, ela demonstrou o quanto se equivoca e é parcial, ao pintar um "inferno" numa cidade com bons equipamentos públicos. Há alguns anos até poderíamos afirmar o que ela diz, mas hoje em dia não. Ela andou pelo prédio provisório do CED São Francisco. Ele fica dentro do CAIC, no centro da cidade. Pois, em frente ao CAIC existe uma linda praça, com bancos, playground (parquinho infantil com areia) e árvores de sombra. Um local que já foi palco de saraus e shows. Que foi recentemente palco do 16º Aniversário da comunidade. Diz ela, "sempre achei que a primeira e mais eficiente alternativa no combate às influências ruins fosse a oferta de oportunidades boas. Reforcei minha lógica depois de conhecer São Sebastião. Andamos por todas as quadras, de norte a sul, nos extremos leste e oeste, e não encontramos praças, nem bancos, nem quadras de esporte. Também não existe cinema, nem teatro".

Lista de equipamentos e manifestações culturais relatados em comentário à seu texto no blog do "Profissão Repórter". Quem relatou foi Eduardo Nunes, músico e morador local. Com base em informações da Administração Regional de São Sebastião:


- 10 praças

- Aulas de música para iniciantes semanal;

- Aulas de música para músicos semanal;

- Oficina permanente de circo;

- 1 brinquedoteca que funciona diariamente e atende 200 crianças;

- Evento de rap periódico- "Hip Hop Solidário" - que acontece bimestralmente;

- 1 fórum de entidades que reúne cerca de 40 entidades do terceiro setor que se reúne mensalmente;

- Artistas premiados em teatro e música;

- 10 campos de futebol, sendo 4 iluminados e 1 com grama sintética de uso gratuito, 2 ligas desportivas que promovem campeonatos semestrais há anos e mais 6 kits malhação com circuito inteligente pensado por especialistas em educação física;

- 8 quadras de esporte;

- 2 ginásios de esporte;

- 1 sarau que é realizado mensalmente há sete anos;

- 20 grupos de dança;

- 1 evento de rock que é realizados a cada dois meses;

- 1 grupo de catira;

- 1 escola de samba;

- 5 quadrilhas juninas premiadas no concursos regionais;

- 10 playgrounds de uso gratuito espalhados pela cidade;

- 5 campos de futebol de areia de uso gratuito espalhados pela cidade;

- 1 vila olímpica em fase final de construção (a maior do DF);

- 1 parque ambiental com vários equipamentos públicos em construção e sendo revitalizado, com anfiteatro previsto;


Em Jornalismo é prática corrente desconfiar de informações oficiais e checá-las à exaustão a fim de confirmar um dado. Num jornalismo preguiçoso, publica-se qualquer coisa sem apuração. Nesta situação, Carol escreveu texto falando da falta de uma infraestrutura básica na cidade. Não procede.

Polícia em ação

Vale ressaltar que recentemente as polícias, civil e militar, fizeram a "Operação Tsunami II", que prendeu quase 50 envolvidos com crimes na nossa localidade. E que nos últimos anos só há alguns períodos isolados onde ocorrem incidentes entre os grupos rivais. Não estamos no Rio de Janeiro.

Caco: meu conterrâneo me decepciona

Assisti na Universidade de Brasília (UnB) uma grande palestra, num projeto chamado "Diálogos Universitários". Foi em 2008 ainda, Caco Barcelos discursou sobre uma constatação de seus anos de jornalismo investigativo. Falava sobre a cultura de violência que aflige nossa sociedade.


Foto Herick Murad
Enquanto as alunas expressam sua arte,
o repórter Felipe Gutierrez (de mochila preta, ao fundo)
está de costas para a realidade. Carol (de laranja) sentada nem assiste




Na palestra, ele defendeu que há uma cultura de violência em nossa sociedade, com base em estatísticas sobre a quantidade de homicídios por armas de fogo na capital paulista. Segundo a pesquisa, somente 4% dos assassinatos à mão armada na capital da garoa são cometidos por criminosos com real envolvimento marginal. Naquele período de pesquisa exposto por Barcelos, 20% das mortes "à bala" foram responsabilidade de policiais. E concluiu dizendo que os demais 76% dos crimes desta natureza são feitos por supostos cidadãos comuns, em situações inesperadas e tal. E justifica isto como sendo a cultura de violência que impera em nosso meio social violento, mostrando também o alto índice de pessoas que aceitariam práticas de tortura contra bandidos presos para obtenção de informação. Fiquei pasmo com aquela palestra. Fiquei fã do editor chefe do "Profissão" depois disto.


Não esperava a edição dada à matéria sobre as gangues no DF. Este viés dado ao conteúdo só perpetua e dignifica o lado mal da realidade. Vamos sobreviver. Nossa comunidade já sofreu de estigmas piores como a cidade com hantavirose, recordista de dengue e mais violenta do DF. E que para a projeção de meia dúzia de jornalistas fomos mais tachados ainda. A opinião pública da comunidade é diferente do que este programa refletiu e gostaríamos muito de mostrar o outro lado da moeda, a nossa cultura de paz. Já fui muito orgulhoso de saber inclusive que Caco era gaúcho. E um cara de origem simples, não sei se de favela, não sei se ele já teve o sentimento de "perifa", de pertencer a um lugar. Tomara que ele se lembre disto quando edite suas matérias sensacionais. São Sebastião não vai se esquecer.

Comecei a estudar Jornalismo por causa de profissionais de classe média como estes, que falam de coisas das quais não entendem e, que mesmo vendo e convivendo com as realidade de comunidades tão ricas quanto esta, não conseguem transpor o sentimento de um local. Presos ao factual, pontual. Vem com uma tese fechada só para ilustrar e não constatar quais são os fatos "in loco". Abram-se para se surpreender com o que encontram, senhores comunicadores.



Consegui bolsa de estudos por meu mérito e vou me formar. Trabalho com jornalismo comunitário e pretendo poder dar voz às favelas pelos nossos próprios meios. Nossa resposta será dada em voz alta e bom tom. Ninguém precisará mais pôr palavras na boca de nossos jovens, ou pintar o inferno para parecer correspondente de guerra em início de carreira e se projetar. Tomara!



*Vinícius Borba é jornalista
e gaúcho, como Caco Barcelos.
Talvez por isso ele tenha feito
esse matéria sensacionalista
sobre a matéria sensacionalista
do outro.

d.b., co-editor pentelho
que faz comentários sensacionalistas
sobre o metasensacionalismo alheio.

Comunidade no Orkut criada em protesto à jornalista Caroline Kleinübing: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=92648864



This entry was posted on quarta-feira, 5 de agosto de 2009 at 04:35 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

7 comentários

Alguém, por favor, pode colocar o link da comunidade do orkut que foi criada como alternativa à essa reportagem sensacionalista da Globo?

Eis o link (para pôr no tópico):

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=92648864

valeu!

9 de agosto de 2009 às 08:24

o co-editor Danny pereira já atendeu sua solicitação.

falou.

10 de agosto de 2009 às 06:58

Quem deixou esse povo vim aqui acabar com a nossa cidade, agora temos fama de ladrões para o Brasil inteiro, porque eles não mostraram uma daquelas favelas no Rio ou de São Paulo??
Por que eles não mostraram o Senado e a Câmara que lá sim tem algumas gangues, que tiram muito dinheiro do Brasil e continuam só nos explorando, e nos enganando(ou pelo ao menos tentando enganar-nos)isso é de deixar qualquer um indignado!
Apesar que a violência que ocorre aqui ocorre em qualquer outro lugar do mundo.
Temos que mostrar o lado bom de São Sebastião!!
Vamos provar que também mora gente decente nessa cidade!
www.cefdobosque.com vejam o site da escola do Bosque de São Sebastião.

31 de agosto de 2009 às 00:04

Do suposto jornalismo “investigativo” ao reles jornalismo especulativo e sensacionalista do dito Profissão Repórter da Rede Globo.

Chegamos de vez ao fundo do poço, ou pelo menos já estamos quase lá. É fato cada vez mais corriqueiro nesses últimos tempos constatarmos uma assombrosa e vergonhosa falta de profissionalismo acarretada primordialmente pelo baixo nível de qualidade das informações constantemente veiculadas, pela ausência de coerência e principalmente ética no desempenho de um ofício tão louvável quanto útil à sociedade – o jornalismo, o verdadeiro jornalismo. Aquele que é sinônimo de verdade e transparência em todos os sentidos, mas que atualmente anda meio debandado.
Hoje, não é bem isso que se ouve e se ver. O que temos de fato é um descabido sistema que trabalha mais para desinformar que propriamente informar. A lógica se inverteu e já não se tem mais um jornalismo verdade para e pela informação. Esta, agora, é corrompida, forjada, distorcida e notoriamente obrigada a se adequar plenamente aos interesses e conveniências da horda de uma elite secular e parasitária.

12 de outubro de 2009 às 19:04

O que nossos jovens estagiários do Profissão Repórter realizaram em São Sebastião foi a proeza de mostrarem para o Brasil inteiro que o fazer jornalístico hoje em dia já não é encarado com seriedade, responsabilidade e muito menos com coragem e vontade de buscar a informação em sua fonte a mais pura e real possível. Provaram que mais fácil e menos trabalhoso é julgar os fatos pelas aparências, o dito pelo não dito, o todo pelas partes. Não pode ser bem entendido aquele que é mal entendedor! Fazer jornalismo é coisa séria, não ficou pra qualquer um, logo se vê.
Sempre achei que o fazer jornalístico tinha algo em comum com a literatura. Acabei de constatar que realmente tem mesmo. Escrever um poema ou um romance requer conhecimento de causa, provas verossímeis que pelo menos se aproximem de uma razoável verdade que convença o leitor. É óbvio que jamais conseguirei falar precisamente da sensação de medo se nunca antes na vida a experienciei. O máximo que conseguirei será dar uma meia verdade ou uma falsa impressão, o que pode ou não tocar o leitor. Geralmente não lhe causa efeito. Assim também é o jornalismo. Eu não posso falar com a mais alta precisão e verdade sobre a vida em uma favela qualquer, não posso falar dos problemas sociais que por ventura persistam nela, se a visão que lanço sobre tal ambiente é disfocada, externa e distante, uma percepção míope, de fora para dentro. Também o que obterei aqui será um panorama mediano, parcial e naturalmente incompleto. Isso não merece de forma alguma ser chamado de jornalismo. Ninguém é tão idiota o quanto parece para receber e digerir algo do tipo. Só mesmo quem adora ser ludibriado.

12 de outubro de 2009 às 19:06

E por assim ser, assistimos bestializados a uma acirrada e interminável busca por todo e qualquer fato que cheire a polêmica e ibope – uma espetacularização banal da vida comum, marcada pela célere corrida que se observa perpassar da mídia impressa ao próprio telejornalismo. Como verdadeiros urubus a sobrevoarem o céu em via de disputa por uma boa carniça “dando sopa”, os veículos midiáticos não medem o menor esforço para chegar à carne podre e se satisfazerem a contento. Quem chega primeiro tem preferência e, portanto, faz da “chepa” o que bem lhe convier, inclusive “comê-la” por inteira e aguardar para mais tarde uma feliz digestão. Ou pode ainda comer apenas uma parte, satisfazendo-se somente em digerir algumas migalhas. Feita a comilança, a urubuzada sai em revoada. Agora, é esperar do alto, espreitar atentamente e de olhos bem arregalados qualquer outro foco ou sinal de comida, qualquer outro cheiro de carne fétida para novamente avançarem rápida e violentamente para mais uma vez saciarem a gorda fome!
Nunca foi tão fácil fazer “jornalismo” nesse país. É claro que estou me referindo indiscutivelmente a este jornalismozinho chulo, parcial, tendencioso, sensacionalista e por demais especulativo que nem de longe se compara ao Jornalismo verdade e transparente, por sua vez porta-voz de uma informação viva e coerente, pautada pela ética, pelo caráter e respeito à profissão. É difícil para qualquer profissional respeitar e honrar o que faz se ele mesmo não honra nem sustenta um mínimo de respeito por si mesmo. Eis os princípios que norteiam o verdadeiro fazer jornalístico, há tempos em falta.

12 de outubro de 2009 às 19:06

Chega de tanta lavagem cerebral! São Sebastião é muito mais do que isso. A cidade não é a encarnação da violência e das rixas entre gangues. Ela também é cultura e tem coisa de muita boa qualidade para mostrar para Brasília, para o Brasil e para o mundo. É muito mais fácil apontar os problemas e as mazelas sociais que assolam a cidade do que propriamente divulgar as coisas boas, como a cultura local, o lazer e o lindo trabalho que as organizações e entidades sociais locais realizam pela melhoria da comunidade em geral! É de uma monstruosa insensatez acreditar que a violência e as drogas escolhem lugar, tempo e classe social para fazerem o que fazem com as pessoas.
Que eu não vivo no melhor e mais seguro lugar do mundo, já estou mais que ciente. O que eu ainda não sabia – e estou perplexo de só agora ter me dado conta – é que, no Distrito Federal e aparentemente no Brasil inteiro, excepcionalmente, a cidade Satélite de São Sebastião é um bode expiatório, com todos os requintes de uma favela a la Morro do Alemão ou até mesmo de uma complexa Diadema. É bestial. Nestes últimos tempos, infelizmente aquele tão popular e antigo dizer do famoso São Tomé anda meio em falta. Urge mais do que nunca resgatar o seu lema, que era o de só acreditar em algo depois de espichar bem os olhos e constatar. Era preciso ver para crer. Viva São Tomé com toda a sua sagacidade e astúcia! É disso que precisamos um pouco. Um pouco, e já será muito.


Franco Neri

Valeu, Vinícius!

12 de outubro de 2009 às 19:08

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