por Luiz Cláudio*


Há um conto do Dostoievski chamado "O Subsolo". Não será difícil, lendo-o, perceber a semelhança do que ali se diz com o que disseram Schopenhauer, Nietzsche e Freud. Sumariamente, seria o seguinte: o que nos move é a vontade. E a vontade é algo que não passa, sobrinho amado, pela razão. Brota sozinha. E se impõe. Tudo o que fazemos é fruto da vontade e tudo o que não fazemos, embora queiramos fazer, é reprimido pela razão, razão que se move em função de premissas "culturais" (perdoe o uso das maiúsculas, e de aspas, e de outros recursos estilísticos nitidamente enfadonhos).

Pois bem, se uma pessoa sente aversão pelo que quer que seja, sente-o porque ao seu ser repugna o que quer que seja. É algo pelo qual não poderemos nunca julgá-la (e, vale dizer, julgar é, por si, uma burrice). Quando a repugnância é recíproca, ou elas se afastam ou colidem. Na primeira situação, restam poupadas energias (que seriam gastas no conflito rusgante); na segunda situação, fica sempre a sensação de "não levo desaforo pra casa".

À minha natureza repugna o conflito. Dir-me-ás (em coro com Nietzsche): "És um covarde!". De fato. Sou um covarde. Componho um grupo que me dignifica: o grupo dos covardes. Há, adicione ai, uma pitada de preguiça. Um sujeito a um só tempo preguiçoso e covarde, para um preconceituoso profissional, deve se alçado à condição de verme. Ok, sou um verme. Se me movo é que sou movido. Se me arrisco num combate, é sempre por alguma força desconhecida, e menos por coragem. Combato com o bom combate. SLD!**.

Gosto de cordeiros. Gosto da harmonia dos corais. Gosto da sincronia. Gosto de afinação. Gosto de engrenagens azeitadas. Gosto das estéticas clean. Sou apolíneo. Mas, principalmente, gosto dos cordeiros. Gosto do bom andamento das coisas. Talvez porque tema as guerras, talvez porque tema a agressão. Talvez porque, no fundo, sou Deus (vide a divina maiúscula), e Deus, sabe-se, também aprecia harmonias celestiais. Mas estou convicto – Deus me perdoe – que só há harmonia onde há conflito. “Não haveria som se não houvesses o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão.” Dito isso, nem sou pacífico (embora preguiçoso e covarde), nem sou conflituoso (embora goste das harmonias celestiais). Sou Absoluto (melhor ser Absoluto que ser Deus). E ser absoluto é também admitir que só a morte trás a vida. É da natureza da harmonia o combate. É do conflito entre o arco e as cordas do violoncelo que nasce a mais majestosa das melancolias.

Dito isto, vamos ao que interessa. E o que interessa é o preconceito.

De cara, vou logo dizendo que será burrice divergir do seu pensamento (embora se possa divergir da sua aversão às maiúsculas). O que você diz está correto. Veja bem, não estou concordando movido pela preguiça ou pela covardia. Nesse caso específico – o caso do preconceito –, você foi feliz. Todo preconceito é legítimo. Ninguém pode ser julgado por repugnar isso ou aquilo. Exemplo: ninguém deve me censurar pelo fato de eu não gostar de rock. Refiro-me a um determinado tipo de Rock: aquele em que predomina o “barulho”, em prejuízo da letra. E em prejuízo, pasme, do silêncio. Deus sabe quanto gosto do silêncio (o habitat natural [sic, do Co-Editor Neopentelho, na trilha do Devana] das minhas melancolias).

E já errei muito, Devana¹, quando – arrogante até os ossos – destratei ou ignorei pessoas pelo simples fato de elas não raciocinarem com a mesma rapidez que eu, ou pelo fato de elas simplesmente serem alienadas, ou pelo fato de elas serem muito ou totalmente desprovidas de um mínimo de “cultura” (tipo: nunca leram Angústia). O tempo passa, Devana, e a gente começa a lidar com as pessoas não pelo ou em função da película cultural que as recobre, mas pelo que lhes vai lá no subsolo. A bem da verdade, não raro me afasto de pessoas de “bom subsolo”, quando a película é por demais áspera, por demais repugnante. Mas quando é possível ultrapassar a fronteira do verniz, há sempre uma boa alma do outro lado. Há sempre um humano tal qual eu, que – no fundo – quer somente a alegria do convívio.

Vamos lá: Eduardo Cabeção², por exemplo. Do número imenso de membros dos radicais, ele é a talvez aquele a quem mais reverencie. Afora o duvidoso gosto musical – o bendito barulho –, trata-se de um jovem muito amoroso, muito fácil, muito inteligente. É, para ser resumido, uma boa pessoa. Entre ele e qualquer burguês intelectual da academia de filosofia que freqüento, fico com ele. E prefiro, com ele, comer um pão com mortadela, que, com o outro, um lauto jantar. A recíproca pode não ser verdadeira. Cabeção pode conviver comigo na base do “eu te suporto, irmão!”. Fazer o quê? SLD.

Vamos lá: Daniel³, por exemplo. Daniel possui uma camada (a película a que me referi acima) generosa de verniz. É daquelas pessoas com as quais tanto faz pão com mortadela como lautos jantares. Muito provavelmente tenhamos divergências sobre este ou aquele ponto. Mas – falo por mim, não por ele, que dele não tenho procuração – predomina em nós convergência.

Mas, Devana, se o subsolo me repugnar, estarei a postos para a guerra. E vou desferir tudo que há de pior em mim contra o ser pestilento. Quando percebo, Devana, que o humano – na pessoa – é vil, armo-me. E atiro. Fi-lo nesta semana que estive em Brasília. Compunha o grupo de trabalho do qual participei uma figura (havia 40 pessoas) cujo subsolo era/é desprezível, mesquinho, mínimo, mísero, ínfimo e pífio (quisera pudesse ter palavras para expressar!). Enquanto lá estive, usei das armas de que disponho (Deus nos perdoe a ironia), e fui desferindo golpes e mais golpes. Presenteei-a com a cólera.

Pessoas ali presentes, muitíssimo menos inteligentes que ela, foram contempladas com meu cuidado, com meu zelo e toda ternura, meiguice e carinho.

É preciso ficar atento ao subsolo. É lá que está a verdade. Mágico é afinar as almas pelo que nelas vai de bondoso.

Dir-me-ás: "Ora, Tio, o teu conceito de bondade e de subsolo e de verniz e de película e de harmonia e de cordeiros é tudo coisa de maricas”. Pois bem, exercite seu direito de ter preconceito aos meus preconceitos. É um direito. Mas reproduzo suas palavras: a luta contra o preconceito é muito justa. o ideal humanista de igualdade é lindo. mas nosso pensamento ainda tem muito o que amadurecer, e não podemos ser tão simplistas a ponto de ignorar conflitos morais que até um tosco como eu consegue pensar. mas até lá, vamos viver. temos muito ainda por fazer... sempre respeitando as liberdades individuais da forma mais ampla possível" (sic).

E vou logo discordando: nosso pensamento não tem nada que amadurecer. A gente é o que é. Nascemos perfeitos. Nem evoluímos nem involuímos. Somos o que somos, para o bem e para o mal. A alma evolui e amadurece. Os pensamentos nada são. São só pensamentos. E o “ideal humanista de igualdade" não é lindo. O ideal humanista de igualdade só pode ser lindo se a ele nos referirmos como sendo aquele conjunto de possibilidades existenciais (que os regimes capitalistas dão, mas que o mesmo regime retira; Valei-me, Daniel).

Afora isso, não fosse a distância, e eu gostaria muitíssimo se os radicais (os confrades) pudessem se reunir (tipo: toda primeira quarta do mês) para discutir os grandes temas: amor, justiça, liberdade, verdade, sentido, existência, morte, capital, cidadania, indivíduo, universo, busca, alcance, medo, covardia, coragem, ternura, meiguice e carinho.

E, por fim, penso que melhor que preconceito (refiro-me ao termo) é falar em “critérios de seleção”, ou ainda em “seletividade”, ou em “preferências”. Preconceber não me soe adequado. É como parir sem parir.

Espero que textos como estes que você publica sejam cada vez mais usuais no blog. E que os Radicais estejam sempre a postos para irem às RAÍZES dos conceitos. E que o bom debate se dê. E que o bom combate idem.

Deus te abençoe.

Tio Krháudynho



*Kráudinho é DJ por hobby, filósofo de formação e besta por vocação. Como se não bastasse, ainda é IMPLIKANT. Apesar de não gostar de rock barulhento, ele nos presenteia com a fúria de uma banda de metal bem barulhenta (trampa). Ele é um semi-analfabeto ao contrário: sabe escrever tudo com maestria, menos o próprio nome (Luiz Cláudio). Ele acha que será capaz de romper com a hegemonia dos co-editores do blogue, mas não vai conseguir. Ele aguarda ansiosamente pela tréplica do artigo, e fica dando F5 a cada 5 minutos.

Para ler outros textos dele, clique aqui, aqui, ou aqui.

** "Se Lasque Doido" (SLD). A sigla, que, à primeira vista, poderia se referir a mais um grupo musical pasteurizado de irmãos pouco talentosos e canastrões, é, na verdade, um bordão, um grito de guerra ou até, dependendo do contexto, uma evocação mística "nonsense" dos Radicais Livres, parecida, guardadas as devidas proporções, à antológica e atávica saudação franciscana "Paz e Bem", mas invertida, ao anverso e ateia... [Do outro Co-editor, vítima da inveja dos que não sabem o que é ter uma musculatura avantajada na região abdominal... Ímpios!...]

¹ Sobrinho dele e co-editor do blogue, que escreveu o texto ao qual ele faz réplica, ou seja, esse cara que está escrevendo agora.

² Conhecido como "O Penetra", Eduardo Cabeção, além de cabeção, é cabação, e toca numa banda de nome Recalcitrantes. já colaborou com "O Implikant", na edição sobre o Nietzsche, e colaborou com o implikante dirigindo Pálio Dagomé até a feira dos importados, o que rendeu à ele e ao co-editor pentelho o valioso jogo do poderoso chefão.

³ Co-editor não-pentelho do blogue. responsável por manter a lucidez e o bom senso, e eventualmente converter letras maiúsculas em minúsculas, pontos em vírgulas e acentos "circunflexos" em "tiu", colocar aspas nos lugares certos, destacar as partes importantes do texto em negrito, citar as fontes no final do texto, colocar links de referência, colocar o título em maiúsculas, colocar os substantivos coletivos em minúsculas, enfim, tudo aquilo que os colaboradores e o co-editor pentelho poderiam fazer mas não fazem, dando trabalho à ele. daniel é um ávido devorador de livros, e devido a esse hábito sua barriga está ficando ligeiramente saliente. a não ser, é claro, que ele esteja grávido da Neilma.

This entry was posted on segunda-feira, 2 de novembro de 2009 at 15:48 and is filed under , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

1 comentários

realmente, uma musculatura muito, mas muito avantajada...

4 de novembro de 2009 às 10:10

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