É sempre exatamente o que penso. Vão-se passando o tempo, as horas, os dias, as semanas, os meses, e o tédio, o monumental, o cavernoso, ora diminui, ora aumenta e a gente passa a inventar formas de defesa até que elas se tornem inválidas e aí passamos a invariavelmente adulterar a loucura das horas im-passantes, sucumbi-las com a força da própria escravidão, mas eu não posso ao mesmo tempo sacrificar-me, saltar as minhas possibilidades psíquicas e até mesmo físicas pra tentar retomar algo tão perto e tão longe, uma coisa ociosa, uma trágica maneira de desvanecer o espírito, comover-se com o incomovível, e consolar-se com o inconsolável, versejar versos sem nexo e trazer na retina pálida a transpiração exausta do tempo enorme que se eleva inumano sobre mim e sobre minha cabeça; mas também podemos nos salvar com a música dele até o momento em que a lucidez se ampara no espaço e no tempo. É monótona a vida sem amigos... é bom saber que os tenho até em demasia, ainda que amigo nunca seja excesso; tenho a enorme felicidade de admitir que na atual conjuntura mundial, onde os teres invadem com armas as cidades e os seres são sucumbidos numa fúria felina, sou um felizardo no que se refere a amigos... tenho-os aos montes e de todas as espécies: dos mais safados aos mais ingênuos, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais impetuosos aos mais burocráticos, dos mais delirantes aos mais repousados, dos mais chatos aos embriagantes... amigos de toda natureza. Graças à Força... está aí algo de que jamais poderei reclamar, algo contra o qual jamais praguejarei!!! Pois bem!... mas, andando mais um pouco, não sei se por estar distante e nunca mais ter dado um belo sorriso, uma bela gargalhada, é como se eu estivesse perdido no espaço, é como se houvesse perdido o compasso, a ligação com a essencialidade da vida que a mim me foi destinada, como se minha história tivesse sofrido uma interferência irreversível e agora, como um aborígine, vagasse pelo mundo sem encontrar a raiz da questão... mas esqueçamos, que quanto mais a gente fala mais cresce o complexo da demência na loucura e a loucura, a loucura... essa santa canonizada pelo mistério e redentora das atitudes impensadas e impensáveis...

Neste clima de insanidade é que me ponho a dar cabo do acontecimento do dia 9 de novembro de 1995, na cidade de Itapetinga e a loucura deve ser dividida com a devida dúvida da loucura e o bem comum só será obtido no dia em que for proclamado: “coisa de todos é coisa de ninguém”, Mas vamos adiante com esta conduta sem nexo que se chama Dossiê Itapetinga. Antes que eu me extinga, antes que venha a viger leis de silêncio na rua e no boteco, deixa eu aproximar um fato de cinco vidas e mais algumas de mais algumas que merecem o respeito que merecem. Partamos pois na viagem ao som do ConSertão, Estrela Maga dos Ciganos. Elomar. A paixão dos maestros, a loucura dos cientistas, os poetas todos, sonetistas decassílabos e livres e libertos libertinos, analfabetos e doutorados, românticos como o Azevedo ou pessimistas como Dos Anjos, como Hegel, todos os filósofos e políticos, socialistas e sociólogos, capitalistas e capitães das capitais, a lua e tudo mais está presente nesta escrita, nestes versos de vagabundo, nesta história de uma viagem, de um disparate...

De antemão... esquece...

O caso é esse mesmo. Conheci esses camaradas nas quebradas da vida. O mais antigo em minha memória é Maurício. Meu irmão! Com esse há vinte e dois anos vivo a vagabundagem que o mundo pode oferecer: mulher, cachaça, ano letivo repetido, pernada na barriga, surra de mainha, xingamento de painho, pedrada na cabeça, gravidez de mulher... casamento!! O diabo. O único movimento no qual ele não me acompanhou foi nas invasões da chácara de Aguinelo, na beira de Rio Corrente, em Santa Maria da Vitória, no Oeste brabo da Bahia. No mais...

O outro foi Alberto. Esse era besta que fazia dó. Ia pra escola fazendo o cálculo das placas dos carros. Na saída, às cinco da tarde, comprávamos um picolé ordinário numa sorveteria que ficava ao lado do aeroporto. Decididamente, não era bom o picolé, mas ele tinha três sabores e três cores e aí a gente cria que era lucro. A vaquinha tava feita. Não comprávamos nada durante o recreio; guardávamos pra quando fôssemos embora. E isso virou ritual: Alberto, Maurício, eu e Sílvio, outro colega nosso, do qual temos hoje pouca informação, íamos chupando o picolé de três sabores até o fim do muro do aeroporto, um verdadeiro símbolo de nossa infância, o intransponível muro do aeroporto cujos limites internos guardavam tantos segredos. Depois nós descartamos o picolé e achamos mais conveniente brincar de briga nas tabôas do Bairro Alegria. Foi mais de um ano nesta lida até o dia em que Maurício e Alberto melecaram-se todo de bosta de gado (ou era de gente?) numa das lutas. Aí paramos! Ficamos traumatizados! Anterior ao conhecimento dele, era costumeiro sairmos correndo, atropelando gente, em busca do “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Após ele, entretanto, freamos a besteira e passamos a curtir a vida longe das telas retangulares. Alberto era isso. Não brigava, não xingava, não falava alto em sala, não contestava... mas depois esse menino virou um capeta neste mundo de meu Deus. Fez-me parecer um santo. Sua mãe, Dona Maria José, gente fina, fazedora de bolos inominavelmente gostosos, assistiu no natal passado a um espetáculo diabólico de Betinho, e ela, coitada!, católica legítima, praticante, apostólica, romana, tardou o passo, paralisada na alma ante o desajuste mental do menino: Albertão, bêbado, trocando as pernas, chamando cachorro de cacho, rasgava a bíblia com os dentes e gritava enfurecido: “eu cresci tendo que obedecer a esta desgraça, mas agora eu me libertei desta porra, deste caralho! Agora, liberdade disto tudo”, enquanto a mão esquerda retia um litro de 51 misturado com limão e açúcar, a típica caipirinha nordestina. Mudou bastante! Exatamente por isso o amo. Hoje em dia, na bicicleta, leva um cantil e dentro a hídrica companhia dum “coquinho”.

O outro foi Alexandre. Outro besta. Sujeitinho baixo. Só falava se perguntasse, e era na base dos monossílabos: sim, é, foi, acho, hun, hun, tá, sei...o diabo. Depois, passados os anos, permanece o mesmo. Não bebe, não fuma, não namora em pé, não nada. É uma égua. Mas eu gosto dele assim mesmo, porque a gente pirraça e ele não se importa, só faz rir das piadas. Mas foi com ele que eu pude assistir por inteiro “A vida de Bryan”, meu filme preferido. Hoje ele trabalha numa imobiliária e é amigo do namorado de Magnólia.

O outro foi Dernival. Este eu conheci na festa de aniversário de quinze anos do cachorro do meu primo Wênio. Um vagabundo daquele, bom de pegar no cabo da enxada, comemorando festinha de quinze anos. Eu tô ficando é besta mesmo. Dernival tava lá no canto, passando a mão no dentiqueiro e espiando a bagunça. Astuciando. Nesta noite, por preguiça, resolvi ficar por ali mesmo, nas Bateias. Por falta de espaço na casa de meu primo, tive o confortável convite de Dé para dormir em sua casa. Nesta noite floriu este romance lindo que até hoje perdura com a mesma força de antes. Só foi abalado uma vez esse romance. Mas esquece!! Certa noite, frio comendo o rabo de nego, fomos no “Escorrega-lá-vai-um”. Lá, como era de se esperar, dando vez à sua preferência, se alojou no cangote seboso de uma mulata senhora, ou uma senhora mulata, coroa, seus quarenta anos, fornida e festeira e pôs-se a tomar cerveja e cerveja e mais cerveja com esta dona. Eu, desassociado de suas predestinações filósofo-mulherenga, estranho aos movimentos alcoólicos da vida, mantive-me alheio ao seu devaneio e ao dela, a mulata. Lá pelas tantas, altas horas, o frio engenhando o estômago, invadindo já alma, implorei no ouvido dele:

- Dé, vamos embora, bicho. Larga essa morena aí e vamos nessa.

- Rapaz, você é doido? Uma lapa duma negona dessa, arrumada, cheia da nota, eu vou largar aí, cê é doido?! Olha o diferencial dessa mulher, Fabinho. Olha a caixa de marcha desse bicho. Isso não é brincadeira, não. Olha o fecho de mola!! Rapaz!!

- Bom, é o seguinte, eu vou descendo a ladeira, então. Vê se se arranja com essa coroa e eu vou andando por aí, devagarinho. - e foi aí que Dé soltou essa maravilha de proeza catingueira:

- Rapaz, quem tem medo de cagar não come!!

Na verdade, nem um vale nada! Nem Alexandre, nem Maurício, nem Dernival, nem o safado do Alberto. Nem eu valho nada. O caso é esse mesmo, mas nós entramos numa empreita que não foi brincadeira, não. Esta é a história deste livro. A vagabundagem.

Antes, porém, deixo fluir a aura da boaventurança e dos bons rituais aos olhos da majestosa côrte que me lê. Não me afaguem. Apedreja esta mão vil que te beija.

Confira o livro na íntegra (144 páginas) em:

DOSSIE ITAPETINGA.doc

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