Escuro
Nesse escuro não posso ver. Ou são meus olhos que perdi?
Minha mente não compreende porque tenho tão pouco de mim.
Depois de tanto tempo calado, explorado, escravizado, formatado...
Já não consigo ver do meu lado o meu passado remoto, minhas tradições.
E nem meu nome, meu codinome ou sobrenome são meus...
E os meus, ignorados por meus donos, patronos, sinhozinho, capitão-do-mato.
Esse vazio a me envolver...
Nenhuma terra é o meu chão...
Nenhuma crença que eu possa crer...
Nenhuma idéia. Salvação.
Pois me arrancaram da minha terra e me impuseram crer em outras verdades.
E vejo o meu povo lutando há eras pra manter a identidade.
E reaver os nossos deuses de cores e amores.
Enfim, dizer esse é o meu chão! E não só a ilusão de liberdade!
Máximo Mansur
***
"Eu tive um sonho. E nesse sonho brancos e negros eram iguais". Há 40 anos atrás, em Memphis, nos Estados Unidos, Martin Luther King, o autor da célebre frase, foi assassinado a tiros.
King - eu o trato assim porque fui íntimo dele antes de sua ascensão política, mas isso é outra história - foi um grande ativista da causa dos direitos dos negros em uma época em que o preconceito não era velado e sim manifestado à tocha e ponta-pé.
É ele o responsável, por exemplo, pela conquista do direito dos negros de votarem. Foi também o homem mais jovem a ganhar um prêmio Nobel.
Aqui no Brasil, não temos nem um King, mas temos vários plebeus anônimos que lutam por seus direitos. E uma das maiores conquistas desse povo lutador o o sistema de cotas para negros.
Sistema de cotas para negros?! Espera um pouco! Um país realmente precisa criar leis para que negros, índios, deficientes físicos, gays, lésbicas e simpatizantes possam cursar uma universidade? Não existe algo de errado nessa história?
Por exemplo, a lei que obriga que locais especiais sejam reservados em ônibus, para que pessoas com mais de 65 anos possam se sentar, quando o bom senso e o cavalheirismo deveriam estar implícitos em cada um de nós.
Então precisamos de leis para sermos todos iguais? Será que negros são menos inteligentes que brancos? Será que não temos educação suficiente para cedermos um lugar nos ônibus para quem está um pouco mais cansado que nós?
Essa atitude de tentar igualar a todos através de leis traz um efeito contrário. Estamos sim dizendo que esse ou aquele é inferior ou superior. Já dizia Paulo Freire em seu livro "Pedagogia da Autonomia": a prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia. Quão longe dela nos achamos quando vivemos a impunidade dos que matam meninos nas ruas, dos que assassinam camponeses que lutam por seus direitos, dos que discriminam os negros, dos que inferiorizam as mulheres.
King tinha um sonho. Um sonho já é um começo. E nós, o que temos?
Cristiano Silva
crisesilva@bol.com.br
This entry was posted
on sexta-feira, 30 de maio de 2008
at 01:17
and is filed under
Contos... Crônicas... E outras prosas...
. You can follow any responses to this entry through the
comments feed
.
TOP 100
Blogues Radicais
Contador de Visitas
Cardápio
- Blogues Radicais
- Cartazes e Panfletos
- Cineclube
- Contos... Crônicas... E outras prosas...
- Desaltoalto
- Desenhos
- Devana Babu
- Diretoria e Conselho Fiscal
- Editoriais
- Eduardo 'Cabeção' - "O Penetra"
- Edvair Ribeiro
- Estatuto-CNPJ-Certificado de OSCIP
- Eventos - Apresentações e participações
- Eventos - Realização
- HQs tirinhas charges e afins
- Imprensa
- Luiz Cláudio Sena - "O Implikant"
- Luiz Próton - "QuadriQuântico"
- Notícias
- Novelas folhetinescas
- Podcasts
- Poesia
- Porta-fólio
- Prêmios
- Projeto Expressa Periferia
- Projetos
- Quadros
- Radical News
- Radical Rock
- RadicalRockZine
- Relatório de atividades de 2008
- Sarauradical
- Teatro (esquetes)
- Vídeos