Vocês, letrados, me enojam com essa pretensão de puta frente ao rapazote, acariciando o texto rumo ao deleite precipitado. Por corredores, prateleiras, capas desfeitas e páginas povoadas, procuram-se. Pobres letrados... Entendem que o impresso pulsa e convida e a palavra desenhada perturba o sono. Sabem de mundos e de iguais letrados que reverenciam. Tecem linhas sobre linhas tecidas. Gritam no eloqüente da palavra escrita em busca de redenção. E apenas iguais letrados os socorrerão. Não! Cansei dos que se sabem distintos. Dos que comunicam em silêncio. Dos que ocupam cadeiras de tutores. Sinto nojo dos letrados. Da libido semântica. Da foda em soneto. Do sexo decassílabo gerador de crias mortas e convenientemente rimadas. Do êxtase de ejacular tina, e somente tinta.
E, se bacamarte, traste cuspidor de pólvora, ou Bacamarte, Simão alienado, e ainda esse Bacamarte, portador de mundos impressos, prefiro aqui cuspir. A leitores tão hábeis, de repertório tão vasto e igual, atiro apenas minha saliva de velha frígida.
Quero a inocência dos que não nos podem entender, os que a vida carregou para longe da literatura. Os que vêem a palavra evaporar e a cada instante palavra nova toma-os de assalto. Não sabem eternizá-la na fragilidade do papel. Quero lamber os analfabetos. E que me lambam inteira! Quero encontrar na ignorância credulidade. Os que crêem são mais felizes... e sabem que não cremos em impalpabilidades.
E vocês, letrados, saibam que não me entrego por desconfiar de quem pode decifrar-me. Danço nas letras para quem não pode ler. Num exercício tantálico a inebriar-me da impossibilidade de prazer. Então? Canto coisas belas, pois beleza sobra nessas páginas. Seria pretensão minha, como a vossa. Leiam essas linhas-quimeras em outro lugar. Penso nas palavras que não posso escrever e sei o quanto as quero. Tenho nojo de vocês por lerem tal virtuose e escrever, quiçá, melhor.
Sua pose, sua pena, seu papel...
Dê-me língua e nada mais.
Língua.
Dona Joana, 75 anos, diz-se comunista e pensante. Vende din-din a crianças pouco inteligentes e cria gatos.
"Radical News", novembro de 2006, p. 3.
E, se bacamarte, traste cuspidor de pólvora, ou Bacamarte, Simão alienado, e ainda esse Bacamarte, portador de mundos impressos, prefiro aqui cuspir. A leitores tão hábeis, de repertório tão vasto e igual, atiro apenas minha saliva de velha frígida.
Quero a inocência dos que não nos podem entender, os que a vida carregou para longe da literatura. Os que vêem a palavra evaporar e a cada instante palavra nova toma-os de assalto. Não sabem eternizá-la na fragilidade do papel. Quero lamber os analfabetos. E que me lambam inteira! Quero encontrar na ignorância credulidade. Os que crêem são mais felizes... e sabem que não cremos em impalpabilidades.
E vocês, letrados, saibam que não me entrego por desconfiar de quem pode decifrar-me. Danço nas letras para quem não pode ler. Num exercício tantálico a inebriar-me da impossibilidade de prazer. Então? Canto coisas belas, pois beleza sobra nessas páginas. Seria pretensão minha, como a vossa. Leiam essas linhas-quimeras em outro lugar. Penso nas palavras que não posso escrever e sei o quanto as quero. Tenho nojo de vocês por lerem tal virtuose e escrever, quiçá, melhor.
Sua pose, sua pena, seu papel...
Dê-me língua e nada mais.
Língua.
Dona Joana, 75 anos, diz-se comunista e pensante. Vende din-din a crianças pouco inteligentes e cria gatos.
"Radical News", novembro de 2006, p. 3.
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on terça-feira, 3 de junho de 2008
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