Pequena antologia poética de Suelih Martins  

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MELANINA

À pele morena
daquelas meninas
e daqueles homens
célebre e ensolarada

O cheiro moreno
da pele morena
situa com o cheiro
de terra molhada

E os olhares vazios
inacabados juízes
devem morrer de tédio
com o desafio da melanina sóbria

***

DANDO VOLTAS

Quando olhei a minha paisagem
dentro do meu passado
vi que não mudo nada
E até mesmo os erros
São os mesmos
que sempre cometo

As pessoas
andando na rua
parecem adivinhar minha solidão
e eu me pergunto
como eu vim parar
neste mesmo ponto?

De agora em diante
quero ser borboleta
que pousa sobre cactos
e terra seca

***

A FAVOR DAS ÁRVORES

As árvores pedem ajuda ao sol
secas de terror, vítimas da solidão
Eu as vi assim, brancas
e esplêndidas, mesmo tristes.
Me aproximei para tomar
as sombras, mas caíram
todas as folhas .
Eu, submersa nelas, sorri;
ao invés de sombra, eu agora tinha cobertor

***

CHEGADA

Não me digas...
novamente a estação das flores
chegou e eu não vi.
As árvores graúdas
já ventaram seus perfumes,
o gado feliz
já mastigou seu capim verde,
A chuva amistosa
já serenou sobre a cidade

Mas tudo me passou
despercebidamente

***

PIMENTA FORTE

Pimenta Forte

Eu atraio os caramelos
Atraio os caramelos à beira da flor de lótus
Choro,
choro em primeira pessoa do singular
Mas atraio cada vez mas caramelos
e lótus
e pimenta-de-cheiro muito cheiro!

Eu atraio desordem bagunceira
Porque dentro da carroceria mora um padre
Que não me deixa calar!
Eu grito:
- Ei, seu padre... deixa eu cantar!
e atrair meus caramelos!
Cara
melo melo melo meu cabelo
de mel
dentro do pote de ouro
depois da chuva
chuva da curva
e assim percebo
que só eu entendo
do meu jeitinho
as coisas que a vida
que eu vivo
vivem dentro em mim.

***

MENININHA FOSCA

Menininha fosca
caprichada com cetim
lantejoulas roxas
e pó de pirlimpimpim

coração bate
igual caroço de abacate
e mamãe chora de saudade dade

Quando eu crescer
vou entender
porque tanta gente
se esforça assim
pra não sentir

eu tenho duas mãos
um coração
e muitos amores

por isso me torno chatinha
e pequena
menininha da mamãe

só não me diga, meu amor
(assim eu choro)
que eu sou feito de açúcar-manteiga
e que eu quero uma balinha doce só pra mim!

***

Vagalume


Vagalume
vagabundo
vagando
pelo vagão

Vem, seu Vagalume
fazer uma festa
comigo e com a multidão

Lá em casa não tem vinho
nem floresta para acampar
lá na rua não tem colo
pra que eu possa me acalmar

Vagalume
vagabundo
vagando
pelo vagão
me diz onde é que eu encontro
pra vida uma solução

***

Sem-pé-nem-beira

Frio
de suar
TV
sem antena.
Chuva
sem molhar
Criaturas
dementes
e inconstantes

Choro de criança
Medo
Medo da solidão
Furto
Roubaram-me a cena
e o peito...

Agora estou só
com minha prece
ao São Judas Tadeu

Arrebenta-me,
solo.
Suga-me
para teu canto
(canto-de-três)

***

INSTINTO DE PROTEÇÃO

A Chuva:
Mãe do mar,
das montanhas
e das nuvens

O Sol
Sol paquerador...
Deita sobre o mar,
se esconde atrás do cangote
das montanhas
E faz cócegas nas nuvens

Quando Mãe-Chuva
quer cuidar de seus filhos
esbraveja
faz o Sol corre de pavor.
E ela reina soberana,
molhando a terra
que o sol havia aquecido.
Só nos resta o cheiro
do triunfo matriarcal
terra molhada

***

Minúncia

Aqui.
Impregnado. Andando por sobre o suor do meu pescoço.
Caindo, rolando embaraçosamente
dentro da lágrima salgada que acabei
de produzir
Arrepiando na ponta do pêlo de minha perna,
e logo ali-rente ao couro de minha sandália,
na planta dos meus pés.
Nas cutículas abertas pela água quente do chuveiro,
Bem dentro do castanho do meu cabelo.

Na pupila dilatada.
Nos mamilos esquerdo e direito.
Naquele cílio que não entra
Em harmonia com os demais.

Embora eu procurasse até nos lugares
Mais esdrúxulos... sem surpresa,
te encontrei em todos.

***

SONO

Abra-se o sepulcro da noite:
nasce a manhã
Todos os dias estão mortos quando eu durmo...
É uma hora que passa
Trêmula e rica de tempo
É o meu ser parado
É o vento a correr assustado
O mundo gira mais veloz
Quando estou a dormir...

***

ENCONTRO

A chuva caiu
dentro do vento.
Os dois se enroscaram
e não havia guarda-chuva
que pudesse conter
O amor dos dois.

***

PÁTIO INALTERADO

Um cachorro invadiu
o pátio.
Se fosse um leão,
todos correriam
Coitado do vira-lata...
não provoca nenhum medo,
não impõe.
Moral da estória:
dependendo do bicho,
você corre

***

A FLOR

A flor caiu murcha na terra. Falou comigo:
- Sueli dá-me fogo. Quero fumar.
Eu perguntei
- Dona flor*, o que uma criatura tão linda quer fumando?
- O mesmo que você.

Ela caiu sobre meus pés e eu a peguei com minhas mãos pequenas. A flor morreu sem derramar uma lágrima.

*Digo "Dona Flor" porque elas merecem grande respeito, as flores... As lindas flores.

***

OS CAFÉS

(Os grãos de café conversam enquanto são colhidos)
- Dói acabar assim.
- Que nada. É o destino.
- Destino? Não acredito em destino. Quero poder escolher.
- Escolher... Hunf! Somos grãos de café.Morremos para que uma linda moça beba cafeína moída logo de manhã.

E quando o grão quase decidido escutou a última palavra do grão conformista... Pulou pra fora do saco de colheita e chegou a plantação de cerejas. Pensou: "Se for pra morrer, que eu morra gelado, em cima de um sorvete".

***

A VERDADE SOBRE AS MAÇÃS

A verdade sobre as maçãs
nascem verdes e azedas.
Em determinadas regiões
(na maioria delas!)
existem amantes de maçãs frescas
que beijam cada uma delas antes de
colocarem à venda;
Elas... Morrendo de vergonha,
ficam vermelhinhas.

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